A importância da representatividade para a criança negra

* Scheila Mariani Rocha da Silva

Resumo

O presente artigo apresenta reflexões acerca da importância da representatividade para a criança negra, e suas consequências na autoestima, e o quanto a representatividade positiva é extremamente importante na formação das crianças, frente a essas questões, surge à necessidade de reflexão e a discussão a respeito do assunto.

Palavra chave: representatividade, autoestima, racismo, criança.

 Considerações iniciais

O dicionário trás o significado da palavra representatividade, algo de qualidade representativo, qualidade de alguém, de um partido, de um grupo ou de um sindicato, cujo embasamento na população faz que ele possa exprimir-se verdadeiramente em seu nome. Fazem apenas 131 anos que acabou a escravidão no Brasil, mas ela ainda deixa grandes feridas abertas e uma delas se chama racismo, e com isso vem a pouca representatividade que os negros têm. Os “brancos” tem todos os dias uma grande representatividade, e grandes privilégios pela cor da sua pele. Nos Estados Unidos a escravidão acabou bem antes que no Brasil, porém a situação legal dos negros permaneceu por longo tempo inferior aos demais cidadãos. Por volta de 1960 Malcolm x, Marthin Luther king começaram a ganhar destaque. A marcha sobre Washington e a concessão do Prêmio Nobel da Paz a King em 1964 trouxeram atenção mundial para a causa afro-americana. No Brasil 131 anos e nos Estados unidos 156 anos, e depois de todo esse tempo os negros ainda são descriminados, e quase não tem representatividade, precisamos falar sobre esse assunto.

Racionais

Por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor, como fazer duas vezes melhor, se você ta pelo menos cem vezes atrasado, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses, por tudo que aconteceu, duas vezes melhor como?

Como diz na letra de Racionais como ser duas vezes melhor se você está pelo menos cem vezes atrasado, por isso é necessário reverter esse fato trabalhando desde cedo com a criança o racismo, a autoestima, que elas aprendam a se amar e amar sua cor, e que elas nunca esqueçam que é uma honra serem negros, pois vieram da grandeza, e que não há nada de errado com elas. A representatividade através de super-heróis, histórias e personagens negros tem grande relevância nesse processo de aceitação.

[1]A UNICEF trás em uma de suas revistas os dados de que crianças e adolescentes ainda vivem em contextos de desigualdades. São vítimas do racismo nas escolas, nas ruas. Deparam-se constantemente com situações de discriminação, de preconceito ou segregação. Uma simples palavra, um gesto ou um olhar menos atencioso pode gerar um sentimento de inferioridade, em que a criança tende, de forma inconsciente ou não, a desvalorizar e negar suas tradições, sua identidade e costumes. O racismo causa impactos danosos do ponto de vista psicológico e social na vida de toda e qualquer criança ou adolescente. A criança pode aprender a discriminar apenas por ver os adultos discriminando. Nesses momentos, ela se torna vítima do racismo. Estudos na área de educação infantil revelam que, ainda na primeira infância, a criança já percebe diferenças na aparência das pessoas (cor de pele, por exemplo). A responsabilidade dos adultos é muito importante nesse momento, evitando explicações ou orientações preconceituosas. Não importa se uma criança é negra, branca. Qualquer criança ao conviver em uma realidade de desigualdade e de discriminação tem a ilusão de que negros, brancos, devem ocupar necessariamente lugares diferentes na sociedade. Seja diante da TV, nas escolas, ou em histórias infantis, as crianças vão se desenvolvendo com imagens retorcidas de papéis e lugares segundo cor de pele ou aparências. Por essa razão, uma criança pode achar “desvantajoso” ter nascido negra. Os efeitos disso são a negação e o esquecimento de suas histórias e culturas.

Por isso a sociedade e principalmente as escola, Que são espaços que deveriam promover a igualdade, mas em que sua grande maioria promove desigualdades não podem ficar indiferentes ao racismo, É preciso compreender que a escola é o lugar que contribui fundamentalmente na formação do sujeito em todos os seus aspectos. Mas as práticas constantes são camufladas por piadas e brincadeiras. Porém são justamente essas piadas que trazem a ideia de inferioridade racial. Por isso é de suma importância trabalhar ele desde a infância, elas precisam prevenir, não adianta depois que os casos de racismo acontecem falarem sobre. É preciso mostrar além da escravidão, negros não foram só escravos, torna-se necessário trazer a cultura afrodescendente, trabalhar ela, as brincadeiras, livros com personagens negros, super-heróis, princesas.

“Tornar-se negro, portanto, é vencer inúmeros obstáculos, onde o referencial é sempre o mundo branco; é um desafio doloroso.” (Neusa Santos Souza). O Pensamento da autora nos mostra o quanto é preciso exaltar a cor negra, a cultura negra, pois vivemos em um mundo com um referencial branco, e pode-se imaginar o quão doloroso é para uma criança, sentir-se diferente dos demais, ou tentar torna-se branco, é importantíssimo que isso seja trabalho o mais cedo possível, pois os traumas e as marcas que os adultos carregam de tudo isso fica para sempre.

1 – Importância da representatividade

Por muito tempo o referencial de beleza de indivíduo perfeito sempre foi o de um ideal branco. O que culminou em uma tentativa de branqueamento da população negra para se encaixar nesse modelo de “ideal”. Nessa tentativa podemos citar as mudanças realizadas nos cabelos (alisamentos) cirurgias para afinar o nariz entre outras formas de se inserir no mundo branco. Infelizmente por muito tempo vivemos o negro no mundo branco. A forma como as pessoas são retratadas na cultura influencia enormemente como vemos o mundo e tem um grande potencial de promover mudanças na sociedade, por isso à representatividade torna-se imprescindível.

Para Nilma Lino Gomes (2012) os processos identitários se constroem gradativamente desde as primeiras relações estabelecidas no grupo social mais íntimo – a família – até outras relações que o sujeito estabelece. Por isso a autora ressalta a importância de papéis identificatórios positivos, dentro e fora da família, durante o desenvolvimento e durante a fase escolar. Sendo assim a representatividade entra como fator importante na construção da subjetividade e na identidade negra, onde os negros começaram a conquistar espaço na mídia no meio institucional, na política, na música, filmes que vem sendo inspiração não só para às pequenas gerações, mas a todos os negros. O que traz visibilidade onde o “ser” invisível era algo que fazia parte do repertório negro.  Quando refletimos acerca da invisibilidade negra e seus efeitos na infância, podemos apontar sobre a magia dos contos de fadas, dos heróis e todo universo infantil serem retratados sempre para uma população não negra. A questão da representatividade positiva é extremamente importante na formação das crianças negras. Quando elas vêm apenas pessoas brancas sendo as personagens principais em todas as estórias e histórias, enquanto os negros estão sempre ocupando o pano de fundo, elas desenvolvem um complexo de rejeição que afeta fortemente sua autoestima. Já quando são expostas a diferentes narrativas, em que a população negra é valorizada, sua cultura é exaltada, essas crianças tendem a desenvolver uma autoimagem positiva.

2 – Autoestima da criança negra

A educação das crianças negras perpassa necessariamente por questões de identidade e autoestima, visto que em nossa sociedade o padrão do belo e aceitável está relacionado ao branco e temos um currículo escolar voltado para uma visão eurocentrada do mundo que desconsidera a contribuição dos povos africanos para a formação da nação, retratando-o apenas como mão de obra escrava. Sendo assim, geralmente as crianças negras não se veem representadas positivamente no contexto escolar e isso tem consequências na formação de sua autoestima e identidade.

Segundo Conceição e Conceição (2010) a escola deveria ser um facilitador do encontro de referenciais identitários positivos para a criança negra. Ou seja, os educadores deveriam estar atentos para quais modelos de beleza e principalmente de vida estão sendo oferecido aos alunos. O que ainda não acontece na escola atual.

A autora nos mostra que as escolas e professores precisam estar preparados, sendo assim torna-se necessário mudar seu currículo e suas metodologias. Pois a autoestima é um dos aspectos mais importantes para o desenvolvimento humano, na construção de suas características e de sua personalidade. O seu não desenvolvimento poderá ocasionar problemas que dificultarão suas relações consigo e com a sociedade. Muitas crianças negras sofrem grandes consequências do racismo, e com isso surge á necessidade de trabalhar a autoestima delas, é um processo muito delicado tanto para as meninas quanto para os meninos. A construção da autoestima no negro é algo muito frágil que demora a ser construído e quando não consolidado, pode se romper a qualquer momento. Sendo assim, percebemos a necessidade de adequar as propostas curriculares para que elas sejam de fato inclusivas e contribuam para que todas as crianças se sintam acolhidas nas escolas e tenham todos os seus direitos assegurados. Atualmente observasse mudanças nesse sentido. Criou-se uma lei, 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africanas e afro-brasileiras. Dessa forma, procura-se criar uma representação positiva e valorizar a contribuição dos povos africanos.

É necessário usar histórias com negros como personagem principal, super heróis, princesas e príncipes a criança precisa de representação seja por meio de atividades desenvolvidas na escola como brinquedos e brincadeiras, ou até das histórias contadas, em que elas possam se reconhecer se perceber naquelas atividades.

3 – Considerações finais

A partir dessa pesquisa feita de forma inicial com o tema “a importância da representatividade para a criança negra” pode-se se dizer que a representatividade é de suma importância para as crianças negras, e que Falar de representação negra desde a infância é necessário para valorizar as características de cada pessoa e promover um desenvolvimento pessoal sem as rotulações que muitas vezes inferioriza e diminui a autoestima. E que o debate sobre racismo na infância é emergencial, não podemos mais classificar como “brincadeira de criança” algo que fere a identidade de uma pessoa em formação, abalando sua autoestima, as escolas e professores precisam estar preparados mudando seu currículo e metodologia. 

[1] https://www.unicef.org/brazil/media/1731/file/O_impacto_do_racismo_na_infancia.pdf

Referencial teórico

CONCEIÇÃO, Antônio Carlos Lima da. CONCEIÇÃO, Helenise da Cruz. A construção da identidade afrodescendente. Revista África e africanidades- ano 2; n 8, fev. 2010- ISSN 1983-2354

GOMES, Nilma Lino. Movimento negro e educação: Ressignificando e politizando a raça. Educ. Soc., Campinas, v. 33, n. 120, p. 727-744, jul.-set. 2012.

SOUZA, Neuza Santos. Tronar-se Negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 2ª edição. Rio de Janeiro. Editora graal. 1983.

https://www.letras.mus.br/racionais-mcs/66802/ Acesso: 16/09/2019

https://www.geledes.org.br/construcao-da-identidade-da-crianca-negra-em-meio-relacoes-de-racismo-na-escola/ acesso: 31/09/201

https://www.unicef.org/brazil/media/1731/file/O_impacto_do_racismo_na_infancia.pdf acesso: 31/09/2019

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm acesso: 04/10/2019

[1] https://www.unicef.org/brazil/media/1731/file/O_impacto_do_racismo_na_infancia.pdf