Prática Docente: teoria e prática

* Paula Balbinotti

RESUMO: Artigo mediado por pesquisa bibliográfica que aborda a relação entre teoria e prática na educação. Para tanto, parte da seguinte problemática: qual a contribuição dos referenciais teóricos na construção dos caminhos a serem seguidos pela educação contemporânea para a conquista de processos de elaboração do conhecimento, rompendo o paradigma de mera transmissão, considerando-se o contexto tecnológico da atualidade? No entorno dessa problemática, objetiva-se compreender a importância da relação entre a teoria e a prática, verificando como os docentes devem conduzir a sua ação a fim de efetivar a aprendizagem como o resultado de um processo construtivo e capaz de atender às necessidades da sociedade moderna. A teoria abordada aponta a dificuldade que muitas vezes se apresenta nas escolas para a garantia dessa relação, ao mesmo tempo em que defende a necessidade de contemplar a teoria e prática como ações interligadas, que se complementam e se constroem por meio de um processo dialógico. Defende, também, a importância da formação continuada como momento de reflexão sobre a prática pedagógica e incorporação de novas teorias para o atendimento das demandas. Partindo dessa relação intrínseca que deve existir entre a teoria e a prática, o presente artigo sintetiza referenciais teóricos que devem embasar a prática do professor no contexto do século XXI, com enfoque para a contemplação das Tecnologias da Informação e da Comunicação- TIC como recursos metodológicos a serem colocados em uso no cotidiano escolar como contributos indispensáveis à inclusão digital e formação da cidadania, e cujo conhecimento deve fazer parte da formação docente.

Palavras-Chave: Qualidade do ensino; Teoria e prática; Tecnologia da Informação e da Comunicação,

1 INTRODUÇÃO

A relação entre teoria e prática representa uma contundente reflexão no cotidiano das escolas na busca por uma educação de qualidade, onde o conhecimento seja reconhecido como produto de uma construção, em detrimento da mera transmissão. É nesse enfoque central que se pretende desenvolver a presente reflexão: ensinar não se resume à transmissão de conhecimento, mas à criação de condições para a sua produção (FREIRE, 1996). A ideia de construção do conhecimento, de acordo com um de seus mais ilustres defensores, é resultante da capacidade de compreensão da realidade do indivíduo, capaz de refletir acerca de si mesmo e de sua atividade, como um ser da práxis, não apenas da prática; um ser de relações num mundo de relações (FREIRE, 1977, p. 39).

Quatro décadas se passaram, e o pensamento de Freire (1977) parece manter-se vivo e tão latente quanto à época em que foi publicado. Nessas primeiras décadas do século XXI, a necessidade de se encontrar respostas para uma aprendizagem efetiva, eficiente e eficaz se mantém e se perpetua. Há que buscar caminhos para a educação desses novos tempos, fazendo-se uso dos recursos que devem fazer-se disponíveis à instrumentalização das escolas.

Assim, a área de pesquisa que será abordada pelo presente projeto será a área da tecnologia e aprendizagem, delimitando-se para a prática docente. Desta forma, pretende-se pesquisar sobre a potencialidade dos recursos tecnológicos da informação e da comunicação no cotidiano da sala de aula, considerando-se as possibilidades de utilização desses instrumentos como caminho para a construção do conhecimento.

Nesse sentido, o estudo que se propõe parte da seguinte problemática: qual a contribuição dos referenciais teóricos na construção dos caminhos a serem seguidos pela educação contemporânea para a conquista de processos de elaboração do conhecimento, rompendo o paradigma de mera transmissão, considerando-se o contexto tecnológico da atualidade? Na resposta a essa questão, os seguintes enfoques serão considerados: a investigação acerca da relação que deve existir entre teoria e prática, a formação continuada como processo de formação permanente a nortear a prática, bem como teorias que abordam a inclusão das Tecnologias da Informação e da Comunicação na prática cotidiana das escolas, considerando-se o contexto tecnológico no qual a educação moderna está inserida.

Isso porque vivemos em uma sociedade cercada de recursos da tecnologia da comunicação e da informação, de modo que se torna impossível ignorar a sua influência na educação. No campo pedagógico, muitas discussões são realizadas pelos profissionais do ensino acerca do papel do professor diante das inovações tecnológicas que, além do fascínio que provocam na criança e no jovem, representam importantes fontes de informação.

No entorno desses enfoques, apropria-se do pensamento defendido por Freire (1996) de que a reflexão crítica sobre a prática é uma necessidade nessa relação. Para Freire (1996) sem essa reflexão a se torna a teoria pode transformar-se apenas em discurso, e a prática em ativismo.

Sob os enfoques teóricos mencionados, justifica-se a realização do presente estudo pela necessidade de se compreender como a relação teoria e prática deve ser vivenciada pelos docentes na escola moderna diante das inúmeras transformações tecnológicas. No desenvolvimento dos enfoques teóricos explorados, apresenta-se, em primeiro momento, a relação entre teoria e prática e, em segundo momento, a importância da utilização dos recursos tecnológicos na prática docente.

2 TEORIA & PRÁTICA: UMA RELAÇÃO DE INTERDEPENDÊNCIA

O referencial teórico contemplado neste estudo aborda a relação entre a teoria e a prática, afirmando uma relação indissolúvel entre esses dois momentos. Considera-se que a busca de teorias que aborde a relação entre teoria e prática, longe da mera redundância, contribui para a percepção científica dessa relação.

Contudo, há que se destacar que essa relação nem sempre é reconhecida, conforme defende Silva: “no domínio da educação, entre outras razões pela importância que valores e ideologias têm neste campo, parece haver uma certa dificuldade na transposição e mobilização dos contributos do progresso do conhecimento teórico para a prática” (SILVA, 2013, p. 293).

Considerando-se os desencontros acerca do reconhecimento da relação entre teoria e prática, realiza-se uma breve síntese acerca da importância da formação continuada na disseminação dessas teorias, bem como da importância dos instrumentos de Tecnologia da Informação e da Comunicação no cotidiano escolar.

2.1 Teoria e prática

Toda a prática pressupõe existência de uma teoria que sirva como embasamento, conforme se defende no fragmento que segue: “a competência profissional assenta na capacidade de desenvolver uma ação intencional, o que implica referentes teóricos consistentes” (SILVA, 2013, p. 285).

Nesse sentido, o confronto entre a teoria e a prática deve ser uma preocupação para a qual os docentes devem estar voltados constantemente:

A afirmação consensual, a que se aludiu inicialmente, que a prática profissional não é um mero saber fazer, mas implica uma fundamentação teórica e uma articulação coerente entre teoria e prática, exige um confronto permanente entre teoria e prática, um questionamento da teoria a partir da prática e da prática a partir da teoria, que passa por uma atitude de reflexão crítica – uma atitude de investigação face à prática – que conduz a uma sistematização integrada de diversos saberes teóricos que lhe podem dar sentido (SILVA, 2013, p. 295).

O estabelecimento de uma relação entre teoria e prática encontra respaldo em Souza, Torres e Dantas (2017) que afirmam a teoria como uma necessidade que precede a prática:

O saber docente não é formado apenas pela prática, mas também pela teoria. A teoria tem fundamental importância, com ela nos aprofundamos do conhecimento para pormos em prática o que foi discutido em sala de aula. É na prática que encontramos nossas reais dificuldades e, assim, buscamos com a aplicabilidade melhorar a formação. (SOUZA, TORRES E DANTAS, 2017, p. 129)

A necessidade de se estabelecer relação entre teoria e prática também vai ao encontro do dispositivo da Lei de Diretrizes e Bases da educação que afirma a associação entre teoria e prática como um dos fundamentos da formação de profissionais (BRASIL, 1996).

Candau e Lellis (2011) afirmam a teoria e a prática como componentes de uma mesma unidade. Dessa forma, teoria e prática, na visão dos autores, correspondem a elementos cujos significados são diferentes, representando processos complementares. Trata-se, na visão dos autores, de uma ação simultânea e recíproca, indissolúveis para superar uma visão dicotômica.

Para Freire (1996) todo o conhecimento é inacabado, podendo ser reconstruído, transformado, substituído, recriado, de modo que todo o conhecimento novo supera aquele que o antecedeu, e pode ser também ser superado por outros novos conhecimentos. O conhecimento é, assim, um processo de sucessivas reconstruções.

Assim, o professor não pode ser objeto de uma formação, aceitando passivamente as verdades que lhe são apresentadas, mas questioná-las, refletir sobre essas verdades e processá-las de acordo com uma postura ativa de transformação.

Tal conceito de professor vai ao encontro de Domite (2003) ao afirmar que o professor reflexivo é um dos eixos temáticos na linha de formação de professores. Para Ponte o conhecimento do professor deve abranger:

o conhecimento dos conteúdos de ensino, incluindo as suas interrelações internas e com outras disciplinas e as suas formas de raciocínio, de argumentação e de validação; o conhecimento do currículo, incluindo as grandes finalidades e objetivos e a sua articulação vertical e horizontal; o conhecimento do aluno, de seus processos de aprendizagem, dos seus interesses, das suas necessidades e dificuldades mais frequentes, bem como dos aspectos sociais e culturais que podem interferir positiva e negativamente no seu desempenho escolar; o conhecimento do processo instrucional, no que se refere à preparação, condição e avaliação de sua prática lectiva (PONTE,1999, apud DOMITE, 2003, p. 44).

Conforme se verifica no fragmento supracitado, o conhecimento do professor deve ser bastante abrangente, contemplando diversos fatores que podem interferir no alcance dos objetivos propostos, culminando na aprendizagem. Assim, esse conhecimento não está restrito a uma área do conhecimento, nem no domínio do conteúdo; a aprendizagem é produto de interações.

2.2 A construção do conhecimento no contexto da Tecnologia da Informação e da comunicação

A LDB determina a inclusão do aluno no universo das tecnologias da informação e da comunicação por meio do dispositivo 36, que orienta o uso desses recursos a fim de que o aluno “apresente domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna” (BRASIL, 1996).

Tomando as diretrizes e bases da educação brasileira como necessidades a serem atendidas, o cumprimento dessas determinações representa o atendimento à legislação pertinente e,mais do que isso,o atendimento às demandas contemporâneas da educação.

As Tecnologias da Comunicação e Informação- TIC podem se tornar importantes aliadas do processo de formação de um aluno crítico, consciente de seu espaço no universo e de seu papel enquanto agente transformador. Para Ferreira (2014) o atendimento às exigências tecnológicas e às tecnologias inovadoras deve ser preocupação presente na formação docente. O referido autor reconhece as tecnologias como facilitadoras da formação de professores e da promoção da aprendizagem.

Assim, Ferreira (2014) aponta a importância das TICs não apenas como instrumento metodológico de ensino em sala de aula, mas também como recurso que o formador pode utilizar na formação, de modo que a capacitação docente pode acontecer hoje em qualquer contexto.

Mantoan (2003) refere-se ao surgimento e expansão de um novo conceito de ensino e aprendizagem que se dissemina por meio de redes, permitindo conexões cada vez mais rápidas e multidirecionadas:

Um novo paradigma do conhecimento está surgindo das interfaces e das novas conexões que se formam entre saberes outrora isolados e partidos e dos encontros da subjetividade humana com o cotidiano, o social, o cultural. Redes cada vez mais complexas de relações, geradas pela velocidade das comunicações e informações, estão rompendo as fronteiras das disciplinas e estabelecendo novos marcos de compreensão entre as pessoas e o mundo em que vivemos. (MANTOAN, 2003, p.12).

Um trabalho que aposte na inclusão da tecnologia como instrumento metodológico deve compreender o processo de ensino e aprendizagem mediado por esses recursos da seguinte maneira,

O emprego da tecnologia no processo de ensino e aprendizagem exige planejamento, acompanhamento e avaliação da selecionada, a fim de contextualizá-la ao tipo de aluno, aos objetivos da disciplina, ao modelo teórico- referencial educacional adotado (FARIA; RAMOS, 2011, p. 16).

Conforme é possível verificar, o modelo atual apresentado é bastante diverso do que se tinha no passado. De acordo com Antunes, há trinta anos atrás a aula era pensada da seguinte maneira: “O professor era o centro do ensino e o aluno apenas um receptor de saberes que, aula a aula, ia acumulando. Quem não acumulava o suficiente poderia ser corrigido com castigo ou uma reprovação” (2007, p. 15).

Obviamente esse sistema de aula, quando, segundo Antunes (2007) não havia o celular e os computadores ainda não haviam alcançado a evolução que possuem hoje, não funciona mais. Se o contexto mudou, a escola necessita dispor de profissionais para esses novos tempos. Contudo, “ainda existem aulas em que o professor é o centro do processo de aprendizagem” (ANTUNES, 2007, p. 16).

O que Antunes (2007) propõe é a superação desse modelo. Para tanto, é importante que se discuta a educação no contexto da Tecnologia da Informação e da Comunicação- TIC.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo-se em vista as informações apresentadas neste estudo, foi possível verificar que o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas contribuiu para a dinamização do processo de comunicação entre os homens, possibilitado por recursos variados. Atualmente, estas tecnologias estão cada vez mais presentes na vida cotidiana de crianças e jovens. Se por um lado esses recursos representam potenciais instrumentos de desenvolvimento da consciência crítica quando bem utilizados, o uso inadequado desses recursos faz com que, muitas vezes, seus usuários sejam dotados de conformismo e alienação.

Se antes era professor, quadro, giz e livros didáticos, o acesso às TICs permite inúmeras possibilidades de construir uma didática mais envolvente. Sob esse enfoque, em um espaço onde tecnologia e educação compartilham de um mesmo alvo, buscando instigar o interesse e o desenvolvimento do aluno, esses elementos podem assumir uma postura de complementaridade na formação da cidadania de modo a comungar de objetivos comuns.

Assim sendo, diante da verdade de que a escola necessita zelar pelo conhecimento científico elaborado e pela construção de novos conhecimentos, é verdade também que a tecnologia revela-se como inegável instrumento de transformação, elaboração e reelaboração das novas estruturas do conhecimento, caracterizadas pela velocidade, pelo poder de atração e pela necessidade de confronto entre as novidades que surgem e os conhecimentos que já se possui.

Defendendo-se o uso das TICs nas escolas, como prática cotidiana aliada ao trabalho pedagógico, defende-se a indispensabilidade de uma formação teórica, cujos conhecimentos, elaborados a partir da pesquisa e da ação, possa apontar para a conquista de uma educação libertadora, autônoma e, por conseguinte, formadora dos cidadãos dessa era digital, conectada e interligada. Dessa forma, diante desse contexto em que as mídias surgem como uma forte interferência nessa formação do aluno do século XXI, é preciso que o professor esteja preparado para lidar com esses recursos, de maneira a direcionar essa influência para a reflexão acerca de valores e informações necessários a sua formação.