Cacoete de professora
Na tentativa de escapar da mesmice dos filmes que vêm sendo produzidos pela Meca do cinema (muito ao gosto da grande maioria), tenho descoberto filmes que tratam sobre a educação e escolas em geral e que impressionam pela sua verossimilhança com a realidade encontrada na escola ao lado de nossa casa tanto no que se refere aos alunos como aos professores e famílias. Coincidência ou não, esses filmes são produções européias, especialmente francesas e alemãs.
Dentre eles, falo de Stella, filme de Sylvie Verheide que recebeu a classificação etária de 16 anos. Incompreensível. O filme não contém uma única cena de sexo, ou de violência ou de drogas. Um abuso infantil é apenas sugerido, quase imperceptível. Com esta classificação, a exibição do filme prejudica a universalidade que este filme francês procura alcançar.
A jovem diretora francesa, que ganhou o prêmio Arlequim do governo francês de melhor roteirista, conta, com enorme sensibilidade, a história da iniciação afetiva, sexual e intelectual de uma menina de onze anos. A história é baseada em dados autobiográficos.
Stella mora na periferia parisiense e é filha de um casal que é dono de um bar e pensão que recebe gente das classes baixas, desempregados ou proletários, atendidos pela assistência social. O bar é muito animado e ali, em meio à bebida e à música, homens e mulheres compensam suas frustrações econômicas e sociais.
Stella vive o cotidiano festivo deste bar. Sabe jogar sinuca com os adultos, fliperama, pôquer e até mesmo atirar com a espingarda do pai. Quando, por um lance de sorte, vai estudar numa escola de um bairro de gente abastada sente logo lhe pesar a imensa diferença de educação. Stella sabe como nascem os bebês e como os adultos namoram, mas não sabe nada de matemática, francês, geografia.
Seus pais em nada a ajudam. Entretidos na atmosfera ruidosa e alegre do bar, metidos, pai e mãe, com seus casos amorosos ilícitos, não têm tempo, nem paciência, de prestar atenção às dificuldades da filha em se adaptar na nova escola. Numa cena crucial, quando a menina apresenta à mãe as desastrosas notas dos primeiros testes, esta lhe diz: “fui garçonete a vida inteira e não tenho do que me queixar. Se você quiser isto também, para mim está ótimo. Eu pensei que você soubesse se virar. Esta é a chave que a menina entende para que vá batalhar o destino com suas próprias forças.
Stella, no bar, cercada de adultos fracassados, ou na escola, de amiguinhos ricos que a desprezam, sente uma solidão indescritível. Sabendo que não pode contar com os pais, vai à luta e faz amizade justamente com a colega mais inteligente da turma, uma argentina filha de pais psicanalistas exilados. É nesta amizade improvável entre a melhor e a pior estudante da turma, que Stella vai apostar todas as suas fichas de redenção.
Um dos críticos de jornal disse que Stella procura se conformar à realidade da escola ao mesmo tempo em que nega a atmosfera “libertária” do bar dos pais. Mas a realidade do bar está longe de ser libertária, por mais animada que seja. Justamente, a sensibilidade da diretora está em não procurar maniqueísmos: o bar é acolhedor, mas para aqueles que o frequentam ou vivem nele, funciona como uma prisão onde consolam sua falência existencial. É através de um jogo de táticas que Stella transforma o ambiente severo da escola num espaço de liberdade que lhe abre os espaços do mundo.
Numa cena emocionante, Stella conta à amiga que sempre teve medo de tudo. Demonstrando que é assim que se descobre o caminho da liberdade: não em negar o medo, mas em enfrentá-lo.
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