Um afago na vida silvestre

Refúgio para aves e primatas é a salvação para animais que foram arrancados da natureza e sofreram maus-tratos

Por Redação em 10/09/2009

   

nao. (Foto: Rafael Czamanski)
Um afago na vida silvestre

Um casal de ararajuba, ave símbolo do Brasil pelas cores amarelo-ouro e
verde-bandeira, vive sadio e tranquilo no Primaves, no distrito de Bela
Vista, interior de Passo Fundo. Mas elas não estão no local porque
revolveram sair da Amazônia, atravessar o país e se instalar em um dos
espaços do refúgio. Apreendidas pela polícia com um caminhoneiro que
ganhava dinheiro com o tráfico de animais silvestres, o casal de aves
foi encaminhado pelo Ibama para o criadouro conservacionista registrado
junto ao órgão federal. “O lugar desses animais é a natureza, mas muitos
deles não têm mais condições de voltar para seu habitat natural porque
não conseguiriam sobreviver”, explica o responsável técnico do Primaves,
Luizandro Ferrari, lembrando que outro casal da mesma espécie chegou
junto, mas não resistiu e morreu. Até o início de julho o abrigo
hospedava 93 primatas e 85 aves.

A paixão pelos animais fez com que um projeto iniciado na Universidade
de Passo Fundo (UPF) fosse transformado há cinco anos no Centro de
Acolhimento de Primatas e Aves, o criadouro conservacionista Primaves. A
ideia da professora Thaïs Leiroz Codenotti foi impulsionada pelo seu
aluno na época, o biólogo Luizandro Ferrari. A família dele concedeu por
um determinado período uma área de quase dois hectares na parte central
de Bela Vista para a instalação do refúgio. Para manter o projeto foi
criada a ONG Associação para Conservação da Vida Silvestre - Convidas,
que recebe apoio de pessoas e empresas para sustentar a iniciativa. Uma
das principais parceiras do Primaves é a UPF. A instituição, por meio do
Hospital Veterinário, realiza todos os procedimentos, exames e
atendimentos necessários aos animais. Além disso, nove acadêmicos de
diversos cursos realizam estágio no centro de acolhimento e ganham
bolsas de 50% em suas graduações. “A ajuda da universidade foi
fundamental para a criação do Primaves e é indispensável para a sua
manutenção. Sem essa colaboração ficaria muito difícil continuar o
trabalho”, garante Ferrari.

Violência é tanta que alguns não resistem
A necessidade de atendimento veterinário é constante e indispensável. A
maioria dos animais chega em condições alarmantes devido aos
maus-tratos. Apreendidos pela polícia em operações de combate ao tráfico
de animais ou em cativeiro doméstico, as aves e os macacos sofrem pela
ação do homem. O comércio ilegal submete os bichos a condições de
afronta à vida. Já os encontrados em cativeiros irregulares são tratados
de forma inadequada: amarrados em correntes como se fossem cães,
alimentados erroneamente e até violentados por animais domésticos.
“Muitas pessoas acham, por exemplo, que a comida do papagaio é o
girassol. Isso é um problema grave porque ele pode morrer devido à
gordura encontrada nesta oleaginosa”, lamenta o biólogo, que trata todos
os mais de 100 macacos e aves pelos seus respectivos nomes. Segundo ele,
alguns animais chegam tão machucados e desnutridos que, mesmo com um
tratamento intensivo e atendimento especializado é impossível salvá-los.

Garra para viver!
O bugio ruivo, Nito, está desde a criação do centro e é um ícone da
entidade. Atacado provavelmente por cães, ele perdeu parte do lábio
superior, além de sofrer outros ferimentos graves. Depois de muito
cuidado e, especialmente, de carinho e afago, o macaco conseguiu superar
o trauma e voltar a viver com alegria. A prova disso é que Nito procriou
no Primaves e montou seu grupo familiar.

De acordo com ele, são muitos os filhotes que chegam até o criadouro. “A
mãe é morta e o filhote fica órfão, sendo recolhido e encaminhado ao
Ibama”, frisa. Dessa forma, segundo o biólogo, os animais perdem a
referência de como viver na natureza e precisam de cuidados, o que
também acontece com os macacos e aves retirados de cativeiros privados,
pois eles não sabem mais conviver em grupo. “O homem só pensa em ter o
bicho e não no quanto pode prejudicar o animal. Por ficarem em gaiolas,
a musculatura é atrofiada. Isso é um egoísmo de quem não pensa no
bem-estar do bicho”, observa o responsável técnico. O cuidado é tanto no
refúgio que uma parceria com o Ministério Público Estadual e uma empresa
de Passo Fundo garante placas de aquecimento em todas as casas de aves e
macacos que sejam necessárias. Isso fez com que os casos de problemas
respiratórios praticamente sumissem. “O trabalho no Primaves é de grande
valia, pois temos a certeza de que os animais estarão em um local
adequado”, observa o analista ambiental do Ibama Dalzir Navarini,
enquanto recolhe passarinhos acolhidos temporariamente pelo conservatório.

Segundo um dos diretores da Convidas e idealizadores do criadouro,
Nestore Codenotti, em novembro o Primaves deve de abrir suas portas para
visitação. “Estamos nos estruturando para mostrar à sociedade a
importância deste lugar”, afirma Codenotti. Conforme ele, ainda é
preciso mais parceiros para a manutenção do refúgio.

Ivan quer ajudar do seu jeito
O acadêmico do quarto nível do curso de Medicina Veterinária Ivan
Parreira da Rosa é um dos nove alunos da UPF que trabalham no local. “É
uma satisfação poder estar aqui não só pela bolsa, mas por todo o
aprendizado que me é proporcionado no manejo dos animais. Quero montar
um detalhamento das medicações feitas em cada animal para controle”,
afirma Rosa. Segundo ele, além de tudo isso, os bolsistas ainda aprendem
sobre reciclagem de lixo e resíduos na propriedade.


Espécies de primatas:
Bugio-ruivo
Bugio-preto
Macaco-prego
Sagui do pincel preto
Sagui de tufo branco

Espécies de aves:
2 de araras
6 de papagaios
7 de periquitos
2 de pombas
1 de tucano
1 passeriforme

   
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