Segredo de Stradivarius não está no verniz

Aqueles que imaginavam que o verniz fosse o segredo do renome do grande fabricante italiano de violinos terão de procurar outra resposta.

Por Bruno Quevedo em 08/12/2009

   

nao. (Foto: Divulgação)
Segredo de Stradivarius não está no verniz

por HENRY FOUNTAIN

Em uma descoberta que certamente deve contribuir para um dos mais longos e antigos debates da história da música, pesquisadores que conduziram uma análise detalhada do verniz usado em cinco instrumentos produzidos por Antonio Stradivari revelaram que o luthier usava uma mistura bastante corriqueira de óleo e resina para revestir a madeira.

Aqueles que imaginavam que o verniz fosse o segredo do renome do grande fabricante italiano de violinos terão de procurar outra resposta, sugere o estudo.

"É uma receita muito básica", disse Jean-Philippe Echard, químico no Musée de la Musique, em Paris, que, com a ajuda de outros pesquisadores franceses e alemães, analisou pequenas amostras de madeira e verniz extraídas da coleção de instrumentos Stradivarius que o museu abriga, formada por quatro violinos e uma viola d'amore, datados de entre 1692 e 1724.

O estudo, publicado na quinta-feira pela edição online da revista química alemã Angewandte Chemie International Edition, constatou que um óleo de secagem, de linhaça ou nogueira, era usado como primeiro revestimento, para produzir a selagem da madeira. Em seguida, uma segunda camada de óleo e resina de pinheiro, abeto ou lariço era acrescentada, acompanhada de pigmentos vermelhos em todos a não ser o mais antigo dos instrumentos da coleção. A receita de Stravidari provavelmente não era diferente da utilizada pelos demais fabricantes de instrumentos da cidade de Cremona. "Os ingredientes eram simples, e por isso é provável que aquilo que diferencia seus instrumentos estivesse na habilidade de suas mãos e olhos", afirmou Echard.

Nos séculos que se seguiram à morte de Stradivari, músicos, críticos e luthiers -ou seja, fabricantes de instrumentos de cordas- debateram exatamente o que confere a muitos dos seus 600 instrumentos conhecidos o tom brilhante que exibem. Talvez o elemento responsável seja a madeira que ele usava, ou os padrões de construção que ele desenvolveu e são seguidos até hoje. Ou talvez, como sugeriram alguns observadores, Stradivari empregasse algum ingrediente secreto em seu verniz -proteína extraída de ovos ou de couros animais na camada de base, e âmbar, mirra ou alguma outra substância mais exótica na camada superior; alguma coisa desconhecida que tinha a capacidade de enrijecer a madeira da forma mais perfeita.

Estudos anteriores haviam identificado traços de minerais e proteínas na madeira, o que ajudou a alimentar o debate. Um grupo de estudiosos encontrou indícios de cinzas vulcânicas, e outro sugeriu que talvez bactérias e fungos tivessem influenciado o processo. Em estudo publicado esta semana pela revista The Strad, Stewart Pollens, ex-curador de instrumentos musicais raros no Museu Metropolitano de Arte de Nova York, apontou para indícios da presença de proteínas e gomas, embora, como o grupo de cientistas europeus, ele tenha sugerido que o verniz era formado basicamente por uma mistura de óleo e resina.

Mas os estudos sobre o verniz dos instrumentos Stradivarius foram prejudicados pela falta de amostras, o que é compreensível se considerarmos a raridade e o valor dessas peças. A maior parte dos pesquisadores teve de trabalhar com uma única amostra, ou com base em medidas de superfície de um instrumento intacto, embora o estudo conduzido por Pollens incluísse três amostras de madeira removidas de instrumentos Stradivarius durante processos de restauração.

Joseph Nagyvary, professor aposentado da Universidade Texas A&M que criou controvérsia décadas atrás ao sugerir que existiam traços de minerais no verniz de velhos instrumentos italianos, utilizou amostras de violoncelos de outros fabricantes. "Jamais tivemos o privilégio de obter uma amostra de um Strad¿, ele disse. ¿Tentei por 30 anos e só o que consegui foram insultos".

Nagyvary, que experimentou desenvolver vernizes por conta própria, com o uso de elementos como casca de camarões para adicionar proteínas, diz que as novas descobertas "são de grande interesse".

"Temos de levá-las a sério, mas existem muitas outras alegações", ele afirmou.
O grupo de Echard teve acesso à coleção de Stradivarius do museu, mas ainda assim foram precisos dias de trabalho para decidir de que porção de cada instrumento seriam extraídas as amostras. Em diversos casos a madeira foi extraída do estandarte (a parte de um violino que sustenta as cordas), o que a um só tempo é conveniente e oferece menor probabilidade de que a peça tenha passado por retoques.

"O que temos certeza é de que extraímos dos violinos as melhores amostras representativas das técnicas de Stradivarius", disse Echard. "Se há coisas que não percebemos, talvez seja porque não estão mais presentes, ou porque nunca estiveram presentes".

Douglas Cox, fabricante de
violinos em West Brattleboro, Vermont, disse que as descobertas o haviam surpreendido. "A explicação mais simples sempre tem a maior probabilidade de ser a verdadeira", ele afirmou. A receita "não é tão diferente das receitas de verniz utilizadas nos móveis finos fabricados na mesma área".

Echard diz que Stradivari abordava o acabamento de seus instrumentos à maneira de um pintor. A camada superior pigmentada, afirma, pode ter sido aplicada mais ou menos da mesma maneira que Rembrandt ou Tiziano aplicavam revestimentos para tornar mais suaves os tons de pele. Talvez seja isso, sugeriu Echart em tom meio brincalhão, que torna especiais alguns dos violinos de Stradivari.

"Talvez um músico toque melhor quando vê um instrumento tão belo", disse o pesquisador. "Talvez seja esse o segredo".

Fonte: Terra, do The New York Times

   
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