E viva a vida! O vestibular, o listão e a faculdade

Com 62 anos, aposentada passa no Vestibular de Verão da UPF e está ansiosa para o início das aulas

Por Redação em 10/12/2009

   

nao. (Foto: Alessandra Pasinato)
E viva a vida! O vestibular, o listão e a faculdade

Determinação e força de vontade. Esses ingredientes nunca faltaram na
vida de Ceres Marisa Ferreira, a mais nova bixo do curso de Letras da
Universidade de Passo Fundo (UPF). Para muitos, esse começo de história
pode parecer comum, já que os bixos são geralmente jovens concluintes do
ensino médio, o que dona Ceres também é. Ela concluiu o ensino regular
em 2008, e aos 62 anos foi aprovada no Vestibular da UPF. A felicidade
em ver o nome no listão foi grande e a garra com que a cozinheira
aposentada luta por seus ideais é um verdadeiro exemplo de superação.
Mochila, caderno e todo o material já estão arrumados, esperando março
chegar.

No dia 28 de novembro, em meio aos mais de sete mil vestibulandos,
estava dona Ceres. O caminho até o Campus não foi fácil. “Na vinda para
o Campus houve um acidente e o motorista do ônibus avisou que não
iríamos chegar a tempo. O pessoal desceu do ônibus e foi andando, mas
como tenho deficiência nas pernas não pude fazer o mesmo”, lembra. Ela
conta que o motorista fez um grande esforço para que chegassem. Faltavam
apenas cinco minutos para o início da prova quando ela finalmente entrou
na sala. “Nem acreditei quando estava dentro da sala para fazer a
prova”, comenta.

Dona Ceres é a mais velha dentre quatro irmãos e vê a conquista como um
sonho que se torna realidade. “Apesar de todas as adversidades, lutei e
consegui. Não foi fácil, mas se quer, consegue. Foi fantástico ver meu
nome no listão, uma sensação indescritível. Cheguei lá, consegui. O
sonho se realizou”, comemora. Para ela, a realização maior vai acontecer
em alguns anos. “Já imaginou quando receber o diploma? Vai ser outra
glória. Esse é o caminho pra todos, o caminho para a felicidade e para a
realização. O céu é o limite”, considera. Ela resolveu voltar aos
estudos também por orientação médica “Ele disse que eu teria que fazer
uma escolha, ou ficava esperando ou tomava uma atitude, então resolvi
voltar a estudar”, explica. Agora, nem a artrite reumatóide degenerativa
segura dona Ceres, que tem muitos planos para o futuro.

Para os desacreditados e os que acham que a vida não vale a pena, a
agora acadêmica do curso de Letras – Habilitação em Língua Portuguesa e
Língua Inglesa e Respectivas Literaturas dá o exemplo de superação.
“Sempre quis estudar, mas nunca tive oportunidade. Tinha meu trabalho em
Porto Alegre, depois tive problema de saúde muito sério, mas o sonho de
voltar a estudar nunca deixei de lado”, destaca.

Garra e apoio familiar
A primeira etapa que ela conquistou foi a conclusão do ensino médio no
Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (NEJA), em 2008. Já com o diploma
do ensino médio ela fez um curso de espanhol, depois de informática. Com
o incentivo do Creati, grupo de terceira idade que participa, ela fez um
cursinho pré-vestibular. Além destes, fez o Enem 2008 e o Enem 2009 com
dois dias de prova, sem contar o Vestibular da UPF. Ela conta que no
Creati sempre diz para os colegas não desistirem. “Não é porque temos
uma certa idade que devemos só fazer coisa fáceis, pode-se ir mais
adiante”, pontua.

A preparação para o vestibular envolveu muito estudo e todo apoio da
família. A nova acadêmica conta que quando estava no cursinho e a
maioria dos colegas tinha desistido, ela continuava indo nas aulas.
“Minha irmã e os meus sobrinhos são como se fossem meus filhos, como não
tenho toda a minha integridade, dependo muito deles”, esclarece. Para a
pedagoga Pérola Ferreira de Aguiar, que é sobrinha dela, é um orgulho
muito grande ver a tia voltar a estudar. “Ela está dando um exemplo de
vida para muitas pessoas e que deve ser seguido”, garante. Perola lembra
das dificuldades de quando a tia chegou de Porto Alegre, após a
aposentadoria. “Ela chegou a Passo Fundo desanimada. Sempre tentamos
colocar ela pra cima, ajudando, dando conselhos para não desistir. Sem
isso é muito difícil, ainda mais uma pessoa na idade dela”, ressalta
Pérola.

Leitora exemplar
O gosto pela leitura foi essencial na escolha do curso. “Gosto de ler e
acho que as letras são uma base para o conhecimento. Para fazer tudo,
você precisa ler, saber e interpretar. Aonde tinha oportunidade, numa
revista, um livrinho, eu lia. Gostava de ir nas livrarias, nas
bibliotecas”, comenta. Uma das influências nesta escolha foi a irmã
Carmem Ferreira, professora de português há 32 anos. “Sempre achei muito
bonito, muito fantástico ver ela ler, corrigir prova, escrever
corretamente”, conta. Segundo a sobrinha Pérola, como todos na casa
viviam em função de estudar e envolvidos com trabalhos e livros, dona
Ceres começou a ler bastante jornais, revistas e a fazer palavras
cruzadas, o que pode ter ajudado.

Quanto ao futuro profissional, a estudantes do curso de Letras pensa em
ser professora, fazer traduções e quem sabe escrever um livro. Mas os
sonhos não param por ai, ela pretende seguir outras linhas do
conhecimento. “Se me derem outra chance, quero fazer Direito, que acho
algo fantástica, uma pós-graduação em Letras se tiver saúde e continuar
sempre assim, na base do conhecimento, sempre estudando”, prevê. Na
opinião do sobrinho Fábio Ferreira Aguiar, bacharel em Direito, o gosto
pela área jurídica é influência dele, que se formou neste ano.

O que dona Ceres quer é ter uma vida feliz e alcançar as metas que estão
traçadas sem nunca desistir. “O sonho de estudar se tornou real. Espero
ser uma aluna bem entusiasmada”, finaliza. Em 1º de março, ela inicia
sua caminhada no curso, mais um passo numa história de superação.

   
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