Estrada cerceia vida de animais em risco de extinção

Destruição da mata nativa faz espécies buscarem alimento e abrigo, tendo que enfrentar os perigos da rodovia RS-135

Por Redação em 16/12/2009
nao. (Foto: Divulgação)
Estrada cerceia vida de animais em risco de extinção

Se a mortandade de alguns animais silvestres continuar do jeito que
está, as futuras gerações só poderão conhecer certas espécies nos
livros. Uma obra, em especial, já traz alguns desses animais: o Livro
Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção do Rio Grande do Sul. O risco do
desaparecimento de espécies também é constatada por um grupo de pesquisa
da Universidade de Passo Fundo (UPF) num trecho de 26 quilômetros da
RS-135, entre Passo Fundo e Sertão. Cinco animais ameaçados de deixar de
existir, segundo o livro, já foram encontrados mortos na estrada:
tamanduá-mirim, gato mourisco, veado-mateiro, quati e gato do mato
pequeno. “É triste, primeiro pela quantidade de animais. Segundo, porque
eles precisam se locomover devido a seu hábitat estar sendo destruído”,
lamenta o acadêmico de Ciências Biológicas, Frederico Batistella de
Oliveira, 22 anos.

A preocupação da Equipe de Herpetologia da universidade foi aguçada em
maio de 2008, quando o grupo seguia até o Parque Municipal de Sertão
para desenvolver um projeto relacionado a anfíbios e répteis. Vendo os
bichos atropelados, o sentimento de proteção falou mais alto e uma nova
iniciativa começava a ser realizada. Desde o início da coleta foram
encontrados mais de 60 animais mortos de 15 espécies diferentes O
objetivo do projeto consiste na identificação das espécies atropeladas e
associá-las ao entorno da rodovia, tentando descobrir os deslocamentos e
a atividade diária dos indivíduos.

De acordo com a coordenadora do trabalho, professora Noeli Zanella,
doutora em Zoologia, a mortalidade por atropelamento de animais
silvestres é fator de grande impacto nas rodovias nacionais e parece
fazer parte de todas as estradas do país. “O atropelamento ocorre por
vários motivos, entre eles o excesso de velocidade, e também porque a
rodovia corta o hábitat destes animais, interferindo na faixa de
deslocamento natural da espécie na busca por alimento - grãos, sementes
e plantas herbáceas.”, explica a professora. Com isso, o atropelamento
pode servir de atrativo para outros animais e provocar novas mortes. ‘Os
atropelamentos são tão danosos quanto a caça como causa direta de
mortalidade de vertebrados terrestres e tendem a se tornar uma ameaça à
biodiversidade local e regional”, garante Noeli.

Mata precisa ser conservada
O conhecimento dos mamíferos atropelados na RS 135, entre Passo Fundo e
Sertão, é importante do ponto de vista regional, pois sendo um trecho
pequeno tem um número elevado de animais atropelados, como ocorre em
outras rodovias. Além das cinco espécies ameaçadas que se encontram na
lista para o Rio Grande do Sul - tamanduá-mirim, gato mourisco,
veado-mateiro, quati e gato do mato pequeno – existem outras encontradas
na rodovia sofrendo impacto: graxaim (17), coati (6), preá (6) e ouriço
(5). “O motorista não tem culpa. O que é preciso fazer é conservar o
patrimônio que ainda nos resta de mata nativa”, esclarece Oliveira.

Se o recado passado pelo estudante de Biologia não for seguido, muitos
outros problemas virão. Um estudo realizado em um fragmento próximo a
rodovia mostra que outras espécies de mamíferos vivem nestas matas e
que, felizmente, não foram atingidos pelos veículos que trafegam na
rodovia, o que, segundo a coordenadora do trabalho, pode não ser para
sempre. “Se houver necessidade de procura de alimento, provavelmente se
deslocarão, podendo se tornar mais grave ainda a situação dessa fauna
que vive no entorno da estrada”, prevê a professora.

É possível diminuir o risco de atropelamento
De acordo com Noeli, uma das estratégias para minimizar o efeito dos
atropelamentos seria a ampliação do grupo multidisciplinar, já instalado
na UPF, envolvendo outros profissionais que trabalhariam para
estabelecer ações conjuntas a fim de diminuir os efeitos negativos do
impacto sobre a fauna.

Estas ações poderiam ampliar o estudo da ecologia das espécies
atropeladas (já em andamento com o grupo Conservação de Recursos
Naturais da universidade); implantar mecanismos que dificultem a
passagem dos animais pela rodovia (túneis, cercas, redutores de
velocidade, placas de sinalização, limpeza próximo à rodovia); e um
Programa de Educação Ambiental direcionado aos motoristas,
conscientizando-os dos danos dos atropelamentos da fauna. “É importante
salientar que qualquer uma das ações apontadas, se trabalhadas
isoladamente, dificilmente terão êxito, pois é um trabalho que exige uma
equipe que possa, após a implantação das medidas, avaliar a eficácia da
metodologia para estabelecer, se necessário, outras medidas
mitigatórias”, garante.

O trabalho realizado até o momento na UPF envolve um grupo de
professores e acadêmicos dos cursos de Ciências Biológicas (bacharelado
e licenciatura) preocupados com a preservação da fauna, que buscam
alternativas para evitar a morte de mais animais na rodovia. À equipe
fixa de alunos, se agregam estagiários voluntários para ampliarem seus
conhecimentos. Até agora 10 estagiários já atuaram no projeto.

   
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