Interesse pelo álcool pode ter levado homem pré-histórico a plantar

Será que nossos ancestrais do Neolítico se voltaram para a agricultura para garantir um drinque? O arqueólogo norte-americano Patrick McGovern pensa que sim. O especialista em identificar traços de álcool em sítios pré-históricos acredita que a sede de bebidas fermentadas foi um incentivo bom o bastante para que o homem começasse a cultivar as plantas

Por Redação em 04/01/2010

   

nao. (Foto: Divulgação)
Interesse pelo álcool pode ter levado homem pré-histórico a plantar

Parece que a queda do Paraíso talvez não tenha começado com uma maçã. O mais provável é que a humanidade tenha se desviado do caminho por conta de um punhado de figos maduros.

Eis como é provável que a história tenha começado - um homem, ou mulher, pré-histórico pegou alguma fruta caída do chão e colocou-a inocentemente na boca. O primeiro efeito não foi nada além de um sabor agradável e agridoce que se espalhou pelo palato. Mas à medida que o álcool entrou na corrente sanguínea, o cérebro começou a enviar uma nova mensagem - o que quer que seja isso, quero mais!

Os primeiros encontros da humanidade com o álcool sob a forma de frutas fermentadas provavelmente aconteceram de uma forma acidental como esta. Mas uma vez que se acostumaram ao efeito, acredita o arqueólogo Patrick McGovern, nada deteve os seres humanos em sua busca da intoxicação frequente.

Um fornecimento constante de álcool parece ter sido parte das necessidades básicas da comunidade humana muito mais cedo do que se imagina. Há cerca de 9 mil anos, muito antes da invenção da roda, os habitantes do vilarejo neolítico de Jiahu na China fermentavam um tipo de bebida com 10% de teor alcoólico, descobriu McGovern recentemente.

McGovern analisou artefatos de argila encontrados durante escavações no vale do Rio Amarelo na China em seu Laboratório de Arqueologia Biomolecular para Cozinha, Bebidas Fermentadas e Saúde no Museu da Universidade da Pensilvânia.

O arqueologista, que usa barba, é reconhecido em todo o mundo como um especialista em identificar traços de bebidas alcoólicas em descobertas pré-históricas. Ele realizou a chamada cromatografia líquida associada com a espectrometria de massa nos restos de argila da Ásia e encontrou traços de ácido tartárico - um dos muitos ácidos presentes no vinho - e cerca de abelha nos pedaços de argila. Parece que os humanos pré-históricos da China combinavam frutas e mel para produzir uma bebida intoxicante.

Estratégia de sobrevivência
Além disso, esteróis de plantas mostram que o arroz selvagem também era um ingrediente usado. Sem nenhum conhecimento de química, os humanos pré-históricos, ansiosos pelos efeitos intoxicantes do álcool, aparentemente misturavam punhados de arroz com saliva em suas bocas para quebrar o amido dos grãos e transformá-lo em açúcar maltado.

Esses cervejeiros pioneiros cuspiam então o arroz mastigado na bebida. Cascas e espuma fermentada flutuavam no topo do líquido, então eles usavam longos canudos para beber de jarras de boca estreita. O álcool ainda é consumido desta forma em algumas regiões da China.

McGovern vê esse antigo processo de fermentação como uma inteligente estratégia de sobrevivência. "Consumir açúcar e álcool, altamente energéticos, era uma solução fabulosa para sobreviver num ambiente hostil com poucos recursos naturais", explica.

As descobertas mais recentes da China são consistentes com as provas de McGovern, que sugerem que a habilidade de fazer álcool se espalhou rapidamente por vários locais ao redor do mundo durante o período neolítico. Xamãs e alquimistas dos vilarejos misturavam frutas, ervas, especiarias e grãos em potes até que eles formassem uma mistura consumível.

Mas isso não era suficiente para McGovern. Ele levou a teoria muito mais adiante, visando uma completa reinterpretação da história da humanidade. Sua tese corajosa, que ele detalha no livro "Uncorking the Past. The Quest for Wine, Beer and Other Alcoholic Beverage" ["Tirando a Rolha do Passado. A Busca por Vinho, Cerveja e Outras Bebida Alcoólicas"] afirma que a agricultura - e com ela toda a Revolução Neolítica, que começou há cerca de 11 mil anos - são de fato consequência do impulso incontrolável pela bebida e intoxicação.

"Provas científicas sugerem que nossos ancestrais na Ásia, México e África cultivaram trigo, arroz, milho, cevada e painço principalmente com o objetivo de produzir bebidas alcoólicas", explica McGovern. Enquanto faziam isso, essas primeiras civilizações que gostavam de um drinque conseguiram assegurar sua sobrevivência básica.

Uma bebida híbrida
Há muito os arqueologistas consideravam a questão do que veio primeiro, o pão ou a cerveja. McGovern acredita que os humanos pré-históricos não tinham inicialmente a capacidade de dominar o processo complicadíssimo de produzir cerveja. Entretanto, eles eram ainda mais incapazes de produzir pão, para os quais os grãos selvagens eram extremamente inadequados. Eles teriam que primeiro separar os pequenos grãos, e o resultado dificilmente valeria o esforço. Se muito, os primeiros padeiros provavelmente não fizeram nada mais do que um pão grosseiro pouco palatável, com indesejadas cascas de grãos.

Assim, é proável que os primeiros agricultoras enriqueceram sua dieta com uma bebida híbrida - metade vinho de frutas e metade hidromel - que era de fato bastante nutritiva. Os homens do neolítico eram devotos desse líquido precioso. No sítio de escavação de Hajji Firuz Tepe nas montanhas Zagros no nordeste do Irã, McGovern descobriu prateleiras de vinho pré-histórico usadas para guardar jarros hermeticamente fechados. Os habitantes do vilarejo temperavam seu álcool com resina de árvores de pistache do Atlântico. Diz-se que este ingrediente tinha propriedades curativas, no caso de infecções por exemplo, e era usado como um antibiótico antigo.

Os moradores do vilarejo neolítico moravam confortavelmente em espaçosos abrigos de tijolos de barro, e o arqueólogo e sua equipe encontrou sobras de recipientes de vinho nas cozinhas de quase todas as casas. "Beber não era apenas um privilégio dos mais abastados do vilarejo", diz McGovern, que acrescenta que as mulheres também bebiam.

Uma inscrição misteriosa?
Justamente no Irã, onde o consumo de álcool é hoje punido com chibatadas, o cientista americano encontrou vasilhas que continuam a primeira evidência científica da cerveja pré-histórica. Primeiro ele ficou intrigado com os vasilhames bulbosos com aberturas grandes encontrados no vilarejo pré-histórico de Godin Tepe. Todos os vasilhames de vinho até então conhecidos tinham aberturas menores.

McGovern também ficou surpreso com os sulcos em forma de grade riscados no fundo dos recipientes. Tratava-se de alguma uma inscrição misteriosa?

Mas de volta no laboratório, ele isolou o oxalato de cálcio, conhecido dos cervejeiros como um subproduto indesejado da produção de cerveja. Hoje, as cervejarias conseguem filtrar os cristais sem muita dificuldade. Mas seus antecessores habilidosos, 3.500 anos a.C., riscavam sulcos em suas jarras de 50 litros para que as pequenas pedras ficassem presas ali. McGovern descobriu as primeiras garrafas de cerveja da humanidade.

Os antigos fazendeiros de Godin Tepe cultivavam cevada nos campos próximos ao vilarejo e moíam sua colheita usando pedras de basalto. Então eles fermentavam o grão de diversas formas, numa cerveja preta adocicada e com sabor de caramelo, uma bebida com cor de âmbar, e outras bebidas saborosas.

Por volta da mesma época, os sumérios homenageavam sua deusa da fertilidade Nin-Harra, que eles consideravam inventora da cerveja. Os criadores da civilização mesopotâmica deixaram instruções para produzir cerveja em pequenos pedaços de argila em homenagem a Nin-Harra. O principal ingrediente da cerveja que eles faziam era uma espécie de trigo que desapareceu desde então.

Assim o projeto humano que começou com os primeiro hominídeos tropeçando em volta de árvores frutíferas culminou com esses bebedores de cerveja pré-históricos. "O consumo moderado de álcool era vantajoso para nossos ancestrais", especula McGovern, "e eles se adaptaram a isso biologicamente".

É um legado que ainda pesa sobre a humanidade hoje. O arqueólogo, entretanto, vê a si mesmo como alguém razoavelmente equilibrado nesse sentido. Os ancestrais de um dos lados de sua família, os McGovern, abriram o primeiro bar de sua cidade natal, Mitchell, em Dakota do Sul. Entretanto, o outro lado da família, particularmente puritano, veio da Noruega e evitava estritamente o consumo de álcool.

Fonte: uol.com.br

   
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