Família palestina despejada acampa na rua em Jerusalém

Maysoun Ghawi e sua família acamparam do outro lado da rua onde fica a casa em que costumavam morar.

Por Bruno Quevedo em 10/03/2010
nao. (Foto: The New York Times)
Família palestina despejada acampa na rua em Jerusalém

Tendo perdido sua casa em favor de judeus nacionalistas israelenses, os membros da família Ghawi, palestina, estão passando este inverno em uma barraca montada na calçada oposta à casa em que viveram por mais de cinco décadas, no bairro de Sheikh Jarrah, no leste de Jerusalém.

Para aqueles que desejam uma solução pacífica para o conflito entre israelenses e palestinos, o despejo dos Ghawi toca dois pontos sensíveis: o destino de Jerusalém Leste, disputada por israelenses e palestinos, e as duradouras queixas dos refugiados palestinos da guerra de 1948.

As circunstâncias nas quais os palestinos foram removidos e os velhos fantasmas despertados bastaram até para despertar o há muito adormecido movimento pacifista israelense. Cerca de 2,5 mil israelenses e palestinos participaram de uma manifestação no local, na noite de sábado.

Jovens ativistas israelenses e estrangeiros aderiram à causa. Veteranos líderes da esquerda israelense também começam a comparecer em número cada vez maior às vigílias semanais realizadas em Sheikh Jarrah nas tardes de sexta-feira.
"Estamos aqui para gritar", diz David Grossman, um conhecido escritor e ativista da paz israelense, durante uma das vigílias nas casas disputadas, em uma sexta-feira recente, sob chuva intensa. Os colonos, diz ele, estão fazendo tudo que podem para impedir qualquer acordo que resulte na criação de um Estado palestino.

Por ficar perto da Cidade Velha e de seus locais sacros, o bairro de Sheikh Jarrah é cobiçado pelos dois lados.

No ano passado, 38 membros da família Ghawi foram despejados por Israel de uma casa de pedra de dois pavimentos neste bairro majoritariamente palestino, logo ao norte das muralhas da Cidade Velha. Eles foram imediatamente substituídos por um grupo de fervorosos nacionalistas israelenses, depois de uma decisão judicial, mantida pela
Suprema Corte de Israel, que confirmou um veredicto dos anos 70 segundo o qual o imóvel originalmente pertencia a judeus.

Duas outras famílias moradoras em Sheikh Jarrah foram retiradas de suas casas de maneira semelhante nos últimos 16 meses. O governo de Israel e as autoridades municipais dizem que não podem interferir com uma decisão judicial e que apoiam o direito dos judeus, como os dos muçulmanos e cristãos, a viver em qualquer parte da cidade que desejem.

Para aqueles que defendem a divisão da soberania sobre Jerusalém, no entanto, o influxo de nacionalistas judeus aos bairros predominantemente árabes, que Israel conquistou em guerra contra a Jordânia em 1967, complica o mapa. Além disso, forçar a restituição de propriedades controladas por judeus nessas áreas antes de 1948, consideram os críticos, abre espaço a alegações opostas de parte de refugiados palestinos que perderam imóveis em terras que hoje são parte de Israel, e solapa a rejeição israelense às suas demandas pelo direito de retornar.

Os protestos das sextas-feiras contam com a participação de legisladores israelenses de origem árabe, de legisladores do partido Meretz, de esquerda, e de alguns conhecidos intelectuais, tais como Moshe Halbertal, professor de leis e filosofia judaicas.

Halbertal diz que apoia a política israelense de rejeição ao retorno dos refugiados palestinos - uma posição que tem por objetivo garantir maioria judaica no Estado israelense. Mas, no que tange a Sheikh Jarrah, acrescentou, Israel não pode mudar de posição só porque lhe parece mais conveniente.

Segundo ele, "o tecido da coexistência" é muito delicado na cidade, e como outros observadores ele teme uma explosão.

Ações policiais brutais contra os manifestantes só serviram para angariar mais apoio à causa. Em janeiro, 17 manifestantes foram detidos por 36 horas depois que a polícia declarou que um comício era ilegal; um tribunal de Jerusalém decidiu posteriormente que as decisões não tinham base.

A acessibilidade é outro ponto de atração. Ao contrário das distantes aldeias palestinas em que jovens anarquistas e esquerdistas de Israel se unem aos moradores locais e ativistas estrangeiros em protesto contra a muralha que Israel está construindo na Cisjordânia, Sheikh Jarrah fica a apenas alguns minutos de carro do centro de Jerusalém.

Devido aos aspectos humanitários e políticos do caso, grupos de ativistas israelenses como o Rabinos pelos Direitos Humanos e o Ir Amim, que se concentra nas relações entre judeus e palestinos na cidade, vêm tentando chamar a atenção do público para o caso.

Orly Noy, um porta-voz do Ir Amim, disse que ao abrir os arquivos de 1948 as autoridades israelenses "cruzaram uma linha de alerta muito perigosa".

Israel alega soberania sobre toda Jerusalém, incluindo a parte leste da cidade anexada depois da guerra de 1967. Os palestinos demandam a seção leste, que inclui Sheikh Jarrah, como capital de seu futuro Estado, e veem os assentamentos judaicos na área como parte de um plano mais amplo para cimentar o controle israelense.

No coração do bairro há um templo que os judeus sustentam ser a tumba de Shimon Hatzadik, ou Simão, o Justo, um alto sacerdote judaico da era do Segundo Templo. Uma pequena comunidade judaica vivia no local desde o final do século 19; os últimos ocupantes partiram durante as hostilidades que resultaram no estabelecimento de Israel, em 1948, depois do que a área foi entregue a controle da Jordânia.

Nos anos 50, a Jordânia e a agência da ONU para os refugiados palestinos deram a 28 famílias de refugiados casas no local. As famílias informam que a Jordânia lhes prometeu propriedade plena, mas que as casas jamais foram formalmente transferidas a eles.

No começo dos anos 70, a Justiça israelense concedeu a duas associações judaicas a propriedade do terreno e das construções, com base em escrituras seculares. Os moradores palestinos foram autorizados a ficar como inquilinos protegidos, sob a condição de que pagassem aluguel aos grupos judaicos.

Por rejeitarem a decisão judicial, muitas das famílias palestinas se recusaram a pagar aluguel, e isso as expôs a ações de despejo. O advogado que as representava alegou que as escrituras judaicas eram falsas, mas não conseguiu convencer os tribunais israelenses quanto a isso.

Agora, Maysoun e Nasser Ghawi, e seus cinco filhos, o mais jovem dos quais tem dois anos de idade, vivem em uma barraca montada na calçada, em protesto. A Autoridade Palestina alugou um pequeno apartamento para eles na área nordeste da cidade, mas Ghawi diz que só tem dormido lá para escapar ao frio intenso.

"Temos de nos plantar aqui", disse Ghawi em conversa recente, pouco depois de a barraca de protesto ter sido confiscada pela polícia israelense e reconstruída por vizinhos e ativistas, o que já aconteceu diversas vezes. "Jamais pensei que viveria na rua", acrescentou. "Moramos por 53 anos naquela casa".
Os Ghawi vieram a Jerusalém como refugiados da aldeia de Sarafind, hoje Tzrifin, no centro de Israel. Mas eles, como outros palestinos que vivem além das fronteiras que Israel tinha em 1967, não podem recorrer à Justiça em busca de suas terras perdidas devido ao que alguns observadores descrevem como assimetria nas leis israelenses.

Em 1950, para proteger o novo Estado israelense contra as demandas dos refugiados palestinos, Israel colocou em vigor uma Lei de Imóveis com Proprietários Ausentes.

O texto essencialmente priva os palestinos de quaisquer direitos sobre imóveis que tenham abandonado em terras hoje pertencentes a Israel, caso esses palestinos se tenham abrigado em território inimigo, o que inclui Jerusalém Leste, entre novembro de 1947 e maio de 1948.
Yossi Sarid, ex-ministro e líder do Meretz, recentemente escreveu em artigo para o jornal Haaretz que, quando Nasser Ghawi se senta em sua barraca de protesto com a família, "Sarafind os chama". O caso de Sheikh Jarrah também é complicado para muitos israelenses de posições centristas.

Yossi Klein Halevi, pesquisador sênior do Centro Shalem, uma instituição de pesquisa em Jerusalém Oeste, diz ter se oposto ao ¿direito de retorno¿ judaico a propriedades perdidas na guerra de 1948. Mas aponta que mais e mais árabes adquirem apartamentos no bairro predominantemente judaico onde mora.

"As coisas não podem ser todas decididas em favor de um lado só, em Jerusalém", disse Halevi. "Estou profundamente dividido".

Fonte: Terra, do The New York Times Tradução: Paulo Migliacci ME

   
O Portal ClicSoledade não se responsabiliza pelo uso indevido dos comentários para quaisquer que sejam os fins, feito por qualquer usuário, sendo de inteira responsabilidade desse as eventuais lesões a direito próprio ou de terceiros, causadas ou não por este uso inadequado.

Publicidade