Benefícios do chimarrão são contestados

Pesquisa realizada pela UPF aponta que infusão contendo erva-mate causou danos à memória de ratos e que esta não aumentou a ansiedade das cobaias

Por Redação em 28/05/2010
nao. (Foto: Jaques Hickmann)
Benefícios do chimarrão são contestados

Sorver um mate não depende a hora, o lugar ou quem oferece. O hábito de
tomar chimarrão é tão peculiar no Rio Grande do Sul e por outras
paradas, que nem se pensa duas vezes antes de meter a mão no porongo
cheio de erva-mate e saborear o amargor proporcionado pela tradicional
infusão descoberta pelos índios guaranis. A bebida símbolo do Estado é
presença constante na vida dos gaúchos e também é tema de pesquisas nas
academias sulinas.

Um estudo realizado por uma professora e alunas do curso de Farmácia da
Universidade de Passo Fundo (UPF) resultou em informações que não
condizem em nada com o que se imagina da bebida. Popularmente ela é
estimulante - devido a conter cafeína – e, dessa forma, poderia
contribuir com a memória e até provocar ansiedade. Mas, cientificamente,
isso não ficou comprovado. Pelo contrário, o estudo apontou que houve
perda de memória e em nada foi afetada a ansiedade dos ratos utilizados
no experimento. “Buscamos pesquisar uma das plantas mais utilizadas
popularmente pelas participantes da Pastoral da Saúde, em Passo Fundo,
contra depressão, transtorno de ansiedade e déficit de memória.
Surpreendentemente, os resultados apontaram que a erva-mate, nas
condições testadas, não é benéfica em muitos desses casos”, afirma a
acadêmica de Farmácia Angélica Abido.

Mesmo acreditando na ciência, o tradicionalista Orlei Vargas Carames é
fiel as propriedades medicinais do mate amargo. Pesquisador de trova e
poesia, ele tem em cada cuia uma pílula de remédio. “Respeito o estudo,
mas o chimarrão tem um poder revigorante. Trabalhei 25 anos com
contabilidade e nunca me esqueci de nada por causa do mate”, garante
Carames, debruçado em dois livros relacionados à história e a lenda do
chimarrão. Segundo ele, quando ingere regularmente a bebida, seu
aparelho digestivo funciona muito melhor.

A pesquisa não trata das questões relacionadas à digestão, mas o mate
tem, comprovadamente, cafeína, que é estimulante. Extratos de plantas
vêm sendo utilizados no tratamento de patologias que afetam o sistema
nervoso central há muito tempo. Muitos, no entanto, não passaram por
testes que comprovem seu efeito. A conclusão do estudo é clara,
garantindo que a erva-mate não provocou nenhuma alteração significativa
nos níveis de ansiedade dos animais, contrariando expectativas iniciais.
Por outro lado, houve um déficit de memória com o tratamento realizado.
“Num levantamento bibliográfico descobrimos que a Ilex paraguariensis
(nome científico da erva-mate) não havia sido testada nessas condições”,
comenta a professora responsável pela iniciativa, Andréa Michel
Sobottka, em relação ao ineditismo do conteúdo.

Ao longo dos seus 64 anos, destes, 52 dedicados às raízes do povo
gaúcho, Carames transpira tradicionalismo. De lenço, bota e bombacha,
sentado num pelego branco saboreando o mate, ele entende que as
vantagens do chimarrão estão também ligadas aos costumes e ao imaginário
de quem o toma. “Conheço peão que não consegue montar o cavalo se não
mateia”, garante o funcionário público aposentado.

Apesar dos questionamentos, o estudo seguiu rigorosos métodos de
pesquisa e seus dados foram enviados ao Congresso Pan-americano de
Farmácia, que será realizado em maio, em Porto Alegre. “Pudemos adquirir
conhecimento da prática em um laboratório, nos aperfeiçoando com os
aparelhos e ainda aplicar as técnicas de pesquisa”, comemora a
acadêmica. De acordo com a professora, os dados encontrados com a
utilização dos ratos servem como parâmetro, mas não se pode afirmar que
o mesmo acontece em seres humanos. “O resultado nos surpreendeu e, com
isso, esperamos ampliar a pesquisa e quem sabe utilizar voluntários para
aprimorar a descoberta”, pontua Andrea.

O que aconteceu com os ratos
Durante cinco meses, no segundo semestre do ano passado, a professora
Andrea Michel Sobottka, as acadêmicas da Farmácia Angélica Abido e
Tatiele Zanandrea, a aluna da Biologia Samara Arsego Guaragni, além da
docente Ana Cristina Vendrametto Giacomini estiveram realizando o estudo.

Foram empregados na pesquisa dois grupos de ratos, cada um com 10
elementos, em que um deles bebeu infusão com erva-mate e o outro apenas
água, este atuando como controle. Todos eles puderam tomar à vontade
durante 15 dias o que estava a sua disposição, sendo o líquido
substituído diariamente. Logo após o período, os animais foram
submetidos ao teste de ansiedade em um labirinto em cruz elevado.
Observou-se que os dois grupos exploraram da mesma maneira o ambiente, o
que não era esperado em relação à ansiedade.

Após três dias de descanso, os ratos realizaram o teste de memória. Os
grupos foram colocados numa caixa onde havia uma plataforma. No primeiro
dia, todos desceram até esta plataforma e receberam três pequenos
choques. No segundo, somente o que ingeriu infusão com erva-mate não
aprendeu e voltou a descer até a plataforma, enquanto o que bebeu água
não se arriscou tanto. Os ratos são utilizados por serem práticos para
este tipo de pesquisa.

A rotina do mate
Nem experimente mexer na bomba do chimarrão do seu Orlei. Muito menos
devolver a cuia sem roncar o mate. “Quem vem de fora (do Estado) acha
que é feio. Nada disso! Não fazer o mate roncar, sem tomar tudo, isso
sim é uma desfeita”, larga de sopetão, com o vozerão marcado no sotaque
gaudério. A roda de chimarrão tem regras. É o dono da casa que diz
quando o mate inicia e quando deve terminar. É pela pessoa que está à
direita do anfitrião que começa a rodada e também é o proprietário do
local que enche a cuia. Se alguém se intrometer na roda, a sua vez é
passada, com seu Orlei diz: “O filador não tem vez”. Mas para ele, a
roda de chimarrão tem o poder de fazer novas amizades e até de acalmar
os ânimos e evitar rusgas. “É um remédio”, finaliza o tradicionalista.

   
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