Traição é sempre culpa do marido?

Homens e mulheres traem em proporções parecidas. Eles culpam a si mesmos, e elas os culpam também

Por Redação em 19/06/2010

   

nao. (Foto: Reprodução)
Traição é sempre culpa do marido?

Nos primeiros capítulos de “Passione”, novela da Rede Globo, a personagem Stela, de Maitê Proença, saía pelas ruas à procura de sexo sem compromisso fora do casamento. No início da história, não havia nenhuma preocupação em tentar explicar ou justificar o fato de a personagem trair o seu marido. Com o passar do tempo, no entanto, cenas em que o companheiro de Stela a ignora, passa longe da intimidade e a trata de forma grosseira ganharam espaço. A trama agora foge da hipótese de uma mulher trair simplesmente porque quer. A culpa, cedo ou tarde, será do homem.

O discurso sobre infidelidade de “Passione” reflete muito do que pensam os brasileiros. Quando a antropóloga Mirian Goldenberg entrevistou 1.279 homens e mulheres de classe média carioca para seu livro “Por que homens e mulheres traem?”, uma coisa ficou clara: quando os homens traem, eles atribuem a infidelidade à questões relacionadas à masculinidade; quando as mulheres traem, elas justificam apontando faltas do parceiro. Ou seja, independentemente de quem trai, a culpa sempre recai sobre o homem.

“Uma das coisas que descobri nesses vinte anos de pesquisa é que o homem é sempre culpado. Não só porque socialmente e culturalmente ele tem uma legitimização e até incentivo da infidelidade, mas também pelo fato de as mulheres não poderem adotar o discurso da traição pelo desejo. No entanto, elas traem, e bastante, é quase empatado. Em termos de comportamento sexual – iniciação, infidelidade, número de parceiros – homens e mulheres estão muito próximos. Mas isso não se reflete no discurso, que é onde os dois se refugiam, já que a linguagem é uma forma de as pessoas se colocarem no padrão”, diz Mirian.

Para entender melhor, vale a pena ver a lista de motivos apontados pelos entrevistados. Do universo inicial da pesquisa, 60% dos homens e 47% das mulheres disseram que já foram infiéis. O ranking de razões deles começa com “crise no casamento” e “crise pessoal”. A partir daí, seguem mais 50 justificativas, quase todas classificam a traição como uma consequência da masculinidade, por exemplo: “natureza masculina”, “essência masculina”, “genética”, “machismo” e “índole”.

A lista delas é bem diferente. Nenhuma das razões apresentadas pelo público feminino coloca a mulher como causadora da infidelidade. Pelo contrário. O rol é aberto com “insatisfação com o parceiro” e “defeitos do parceiro”, e segue numa variação sobre o mesmo tema, em que chama a atenção uma impressionante sequência de 25 justificativas iniciadas por “falta”: “falta de comunicação”, “falta de romance”, “falta de tesão”, “falta de elogios” e até “falta de tudo”.

“Tem um sofrimento de inadequação dos dois lados, e às vezes o do homem é maior. Se a mulher se sente mal de um lado, de outro eles não têm um discurso de vítima para referência”, explica a antropóloga. “Tem muito homem que não quer trair. Quem quer trair é o poligâmico, mas muitos não são assim”.

O que elas não dizem

A cobrança feminina, diz a antropóloga, está diretamente ligada ao que ela chama de “miséria subjetiva” das mulheres brasileiras. Isso significa que, em nossa sociedade, “um bom marido” é visto como definidor do valor da mulher. “O marido é um capital, e você tem que conquistar seu valor sendo ‘única’. O teu valor está sob fiança do fato de você ter ou não um homem. Aqui, se você for bem-sucedida e ganhar milhões, vai ouvir 'ah, mas ela não tem filhos nem marido'", afirma Mirian.

Com toda a expectativa do valor delas nas costas deles, é compreensível que isso acabe em frustração. “As mulheres têm muito esse discurso, como se ela fosse a coisa mais maravilhosa do mundo. Tem uma defasagem e uma fantasia feminina de achar que ela é a coisa mais especial que existe e que aquele cara pode completar todas as faltas. Aí ela pode se frustrar muito rápido. Você não é tão especial assim”, provoca Mirian. "É isso que gera comentários e padrões do tipo 'ai, mas se usar pochete não dá'”.

O que eles não dizem

Com ou sem infidelidade, o mais comum é que exista um terceiro elemento na relação: o amigo. O círculo de amizades tem um peso enorme na formação da identidade masculina, inclusive na solidificação de conceitos, como a infidelidade ser ou não parte do homem. A lista de justificativas apresentadas no livro de Mirian está cheia de pistas dessa importância – além dos objetivos “pressão dos amigos” e “competição com os amigos”, os entrevistados do sexo masculino apresentaram uma série de frases feitas para justificar o comportamento extraconjugal, como “não dá para comer arroz com feijão todos os dias” e “a carne é fraca”, típicas de discursos de rodinhas de marmanjos.

Na parte da pesquisa em que a antropóloga pergunta sobre o número de parceiras, 100% dos homens responderam que se julgavam fora da média, ou seja, que tinham tido menos mulheres do que os demais brasileiros. Nenhum entrevistado acha que é normal. Todos têm um “amigo que pegou mais mulher”. Todos.

“Para eles, o amigo é o ponto da comparação, então eles sempre têm um amigo que é melhor que eles. Mesmo o que diz que transou com cem mulheres tem um amigo que diz que transou com 200, e esse tem um que transou com 300”, explica Mirian. Uma curiosidade para quem sempre tem um amigo que transou mais: a média de parceiros ao longo da vida é de doze para os homens e oito para as mulheres.

Por que homens e mulheres traem?

Não há uma resposta a essa pergunta. Mas Mirian Goldenberg conseguiu delimitar do que homens e mulheres mais reclamam em seus relacionamentos. A questão sexual, ao contrário do que muitos imaginam, não chega nem perto das maiores razões para a infidelidade. “O sexo está lá embaixo. Se o problema for esse, as pessoas se separaram. Não é por isso que as pessoas traem hoje”, acredita Mirian. Para as mulheres, o principal problema é a falta de intimidade, para os homens, é a falta de compreensão.

“Eles não têm a menor idéia do que elas querem dizer com 'intimidade'. Ela quer ficar remoendo um problema, destrinchando, às vezes por anos. E eles têm aquela relação com os amigos de “vamos beber que passa”. É uma frase feita, mas é também um estilo de amizade diferente da amizade das mulheres. Parece mais simples, mas que funciona muito bem aqui na nossa cultura”, diz a antropóloga.

Atrás de “intimidade e compreensão”, homens e mulheres buscam fora de casa algo que, na opinião da antropóloga, “o casamento parece que destrói e é fundamental nas relações extraconjugais: o tesão de se encontrar”. “O casamento torna as pessoas o seu pior. As pessoas se tornam grosseiras e desagradáveis umas com as outras, engordam, colocam aquela roupinha confortável e larga, o cabelo sujo. Você trabalha até as 7 horas da noite e ainda tem que chegar em casa e trabalhar para ser bom para o outro?”.

Sem o cotidiano e outras características estruturais do casamento, as relações extraconjugais seriam o terreno onde isso nunca acontece. “É tão batalhado estar com aquela pessoa que você vai sempre o seu melhor. O único vínculo é o prazer amoroso. Pra quê eu vou ficar com um amante de cara amarrada? No casamento você encontra mil motivos para ficar”, acredita a antropóloga.

“A solução é ficar atento para esse movimento que destrói o casamento. Cultivar a delicadeza, admiração e respeito um pelo outro. O ideal é cada um lembrar para si mesmo que sempre quis aquela outra pessoa, e que aquela é a vida que sonhou, e que portanto tem que cuidar disso. É muito difícil ter no mundo, uma pessoa que você admira, tem intimidade, respeita, te dá momentos de alegria. Já que é tão raro, tem que cuidar.”

Carina Martins, iG São Paulo

   
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