Jovens do meio rural discutem questões ligadas ao êxodo rural

Encontro Microregional de Jovens Rurais, realizado nesta quinta-feira (15), na comunidade Barreirinho, em Sarandi

Por Redação em 16/07/2010
nao. (Foto: Divulgação)
Jovens do meio rural discutem questões ligadas ao êxodo rural

“Eu gosto de viver no meio rural e trabalhar lá. Acho que como em qualquer lugar, é preciso gostar do que faz. Se eu quisesse, já teria saído, pois estou com 22 anos”, diz com sorriso nos lábios a jovem Andréia Marta Petry, moradora da comunidade Linha Acampamento, do município de Sarandi. A rotina de Andréia é levantar às 7h, tomar um chimarrão, tirar leite das vacas, ajudar nas atividades da casa, levar as vacas para a pastagem, tratar as galinhas, mexer na horta e novamente ordenhar as vacas. O que ela sente falta é de acesso a internet e ainda insiste com os pais para receber uma renda pela atividade que exerce. A renda da família vem da bovinocultura leiteira, com 17 vacas e da criação de suínos. “Acho importante esse evento para mostrar para os jovens o valor que o campo tem, pena que muitos jovens não se interessam”, avalia.

Andréia foi uma das 200 pessoas participantes, entre jovens, professores e representantes de entidades, do Encontro Microregional de Jovens Rurais, realizado nesta quinta-feira (15), na comunidade Barreirinho, em Sarandi. Participaram alunos de Pontão, Rondinha, Almirante Tamandaré do Sul, Chapada e Sarandi. O evento marcou a comemoração do Dia Estadual da Juventude Rural e foi organizado pela Emater/RS-Ascar, Escola Estadual de Ensino Fundamental Pe. Manoel Gonzales, Prefeitura, Sindicato dos Trabalhadores Rurais e Cooperativa Tritícola Sarandi Ltda – Cotrisal.

Assim como Andréia, outros jovens também sentem orgulho e prazer em viver no meio rural. No entanto, grande parte da juventude vai para a cidade, buscar oportunidades de estudo e trabalho e acabam não retornando ao interior. Isso ficou constatado em uma pesquisa apresentada, durante o evento, pelos alunos da Escola Padre Manoel Gonzales. Os alunos, com a coordenação dos professores desenvolveram o projeto “O lugar que se vive tem a cor que se pinta”, com o intuito de mostrar que se pode viver muito bem no interior. Dentro desse projeto, foi realizada uma pesquisa sobre o êxodo rural com pessoas das 11 comunidades que fazem parte da Escola. De acordo com a pesquisa, na última década 22% das famílias saíram do meio rural. Outro dado levantado é que das famílias residentes, 91% dos filhos estão na cidade e apenas 9% estão em casa. A pesquisa constatou que na maioria das comunidades há poucas famílias residindo e, a maior parte dos seus membros é composta por idosos.

De acordo com a diretora da Escola, Jaqueline De Marco, dentro do projeto foram feitas algumas viagens, como para Bento Gonçalves, no Vale dos Vinhedos. “Com a viagem os alunos puderam constatar que os pontos turísticos são feitos de propriedades iguais as deles. É uma forma de valorização. O jovem rural tem uma qualidade de vida muito boa, é preciso ganhar muito na cidade para ter o padrão de vida que eles têm no interior”, disse Jaqueline. Em seu pronunciamento durante o discurso a diretora alertou: “Não deixem de serem donos para serem empregados na cidade”.

Na oportunidade, o agrônomo da Emater/RS-Ascar, Gilmar Meneghetti, apresentou algumas questões sobre desenvolvimento sustentável e sobre a juventude rural. Segundo ele, iniciativas como esse Encontro são fundamentais para a discussão, mas são necessárias ações posteriores. “Trabalhar com jovens é um investimento social para o futuro. Não se constrói o desenvolvimento sustentável sem a participação dos diferentes segmentos da sociedade local e aqui a escola está dando a sua importante contribuição”, afirmou.

Meneghetti encaminhou um trabalho em grupos, onde os alunos responderam questões como: O que mantém os jovens no meio rural?, O que atrai os jovens para a área urbana? O que podemos fazer para continuar no meio rural? Com essas questões foi possível ter a percepção dos sentimentos dos jovens. Pelas respostas, a família, a liberdade, a qualidade de vida, o baixo custo de vida e o avanço tecnológico são fatores que contribuem para a permanência do jovem no meio rural. Já as atrações do meio urbano como possibilidades de estudo, lazer e diversão, trabalho e renda, recursos como internet e acessibilidade a lojas, bancos farmácias foram levantadas pelos participantes.

Os jovens, durante suas explanações, salientaram a importância de ter apoio dos pais, com vistas à sucessão da propriedade; a necessidade de modernização das propriedades com computador e internet, por exemplo; a busca por conhecimento e qualificação para aplicar na propriedade.

Para a extensionista de Bem-Estar Social e chefe do escritório municipal da Emater/RS-Ascar de Sarandi, Dulcenéia Haas Wommer, o encontro superou as expectativas que já eram boas. “Estamos muito contentes com o número de participantes e com a riqueza dos debates que ocorreram aqui hoje. São jovens participativos, que estão pensando na sua propriedade e no seu futuro. Temos muito trabalho pela frente, porque sentimos nos debates as necessidades e carências que existem no meio rural e precisam ser trabalhadas, tanto pela família quanto pelas entidades que atuam com a agricultura familiar”, avaliou Dulcenéia.

iscussões como essas são fundamentais para o desenvolvimento do trabalho da Extensão Rural junto aos parceiros e ao público atendido, avaliou a coordenadora regional de bem-estar social, Luciana Gobbi,. Segundo ela, encontros como esse permitem a troca de experiências. “Ao se fazer uma análise das discussões temos subsídios e dados que podem ser usados no planejamento de ações”. Luciana ressaltou a importância dos jovens buscarem seus espaços, participando de grupos, sindicatos, encontros e reuniões. "A sucessão familiar precisa ser debatida em todas as esferas e em todas as entidades que trabalham com o meio rural, visando inserir o jovem nas propriedades", concluiu.

Para o gerente regional da Emater/RS-Ascar de Passo Fundo, Oriberto Adami, em suas ações a Extensão Rural busca auxiliar também na viabilidade econômica das propriedades. “Com projetos voltados à bovinocultura de leite, agroindústrias e fruticultura, por exemplo, estamos buscando a diversificação da produção nas propriedades e a geração de renda, oportunizando melhores condições para as famílias e para os jovens rurais”, analisa Adami.


Painel de Negócios

Os alunos e professores da Escola Padre Manoel Gonzales criaram um Painel de Negócios. Trata-se de uma espécie de mural, onde os alunos divulgam os produtos disponíveis na sua propriedade para comercialização, como pipoca, mel, amendoim, pão, cucas, entre outros. O Painel já rendeu negócios para as famílias.

   
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