Conceito do que é belo muda com o passar do tempo

O feio sempre esteve vinculado a algo negativo, mas a beleza é relativa

Por Redação em 28/07/2010
nao. (Foto: Reprodução)
Conceito do que é belo muda com o passar do tempo

Horrendo, asqueroso, desagradável, sujo, obsceno, apavorante, ignóbil, grotesco, vomitante, aflitivo, terrível. Esses são apenas alguns entre os 39 sinônimos para a palavra feio, enumerados pelo escritor italiano Umberto Eco, no livro História da Feiúra, obra que inspirou a reportagem. Adjetivos usados para definir aspectos que desagradam ou afetam os sentidos, incomodam os olhos, que fogem às convenções
de uma época, de uma cultura.

A palavra e suas variações também são usadas diariamente para julgamentos estéticos, diante de imperfeições como um nariz torto, um corpo ou um rosto desproporcional. Felizmente, tanto os conceitos de feiura quanto os de beleza variam no tempo e no espaço. Para constatar, basta dizer que as musas inspiradoras retratadas por pintores do século 17 estariam, hoje, condenadas a encarar um spa.

Mas, afinal, o que é a feiura? Em inúmeras situações, o feio foi o outro, o inimigo, o estrangeiro. No passado, a expressão representou ausência de virtudes, mas também foi referência para dor, morte, martírio. Era a face do demônio e das bruxas. Hoje, é freqüentemente usada para definir aqueles que não se encaixam nos padrões
do que é estipulado como belo.

Por conta disso, muitos inconformados com a própria aparência cometem excessos na busca pela beleza e, ironicamente, acabam encontrando a deformidade, como no caso do cantor Michael Jackson que, por ter enfrentado inúmeras intervenções cirúrgicas no rosto, exibiu nos últimos anos de vida uma face disforme.

A artista plástica Vera Lúcia Tunes Espíndola, de Santa Maria, fez cursos na Escola de Belas Artes de Avignon, na França. Lá, participou de discussões sobre os conceitos de beleza.

– Há teorias segundo as quais o belo é universal, o que explicaria os pintores clássicos serem admirados até hoje. No entanto, outras definem que a beleza está no sentido enquanto essência de vida – afirma Vera Lúcia.

É interessante observar que a mesma sociedade que cobra uma alta fatura dos que são diferentes, estimula a simpatia por monstros como o Mestre Yoda de Guerra nas Estrelas, ET, de Steven Spilberg, ou Shrek, o ogro mais famoso do planeta cujo quarto filme está nos cinemas da cidade. São as contradições do mundo contemporâneo.
É interessante observar que a mesma sociedade que, por vezes, cobra uma alta fatura dos que são diferentes, também estimula a simpatia por monstros gentis como o ET, de Steven Spielberg, ou Shrek, o ogro mais famoso do planeta. São as contradições do mundo contemporâneo.

Nos contos de fadas

A Princesa e o Sapo
Era uma vez um príncipe que foi enfeitiçado por uma velha corcunda e virou sapo, sendo então obrigado a deixar o castelo onde morava. Em busca de uma residência mais adequada à sua nova condição, acabou se estabelecendo no poço de um outro castelo, junto ao qual uma princesinha costumava brincar com sua bola de ouro. Um dia ela deixou a bola cair dentro do poço e o sapo se ofereceu para tirá-la de lá. Em troca, a princesa teria de beijá-lo. Ela disse que aceitava e o sapo se transformou num belo príncipe... E viveram felizes para sempre.

O Patinho Feio
Um filhote de cisne é chocado no ninho de uma pata. Por ser diferente de seus irmãos, o pobrezinho é perseguido, ofendido e maltratado por todos os patos e galinhas do terreiro. Um dia, cansado de tanta humilhação, ele foge do ninho. Durante sua jornada, ele vai parar em vários lugares, mas é mal recebido em todos. O pobrezinho ainda tem de agüentar o frio do inverno. Mas, quando finalmente chega a primavera, ele abre suas asas e se une a um majestoso bando de cisnes, sendo então reconhecido como o mais belo de todos.

No cinema

Shrek
Ainda que Shrek, personagem central da animação distribuída pela Dream Works, não seja um primor de educação e bons modos, a lealdade e a coragem do ogro mais famoso do cinema conquistaram o coração da princesa Fiona e do público

Mestre Yoda
Um dos personagens centrais da série Guerra nas Estrelas não era nenhum primor de beleza. Mas a simpatia da figura, que alia inteligência, poder e sabadoria, marcou gerações de fãs

E.T.
Ele tinha tudo para se transformar em um personagem asqueroso. É feio, enrugado e desproporcional. No entanto, o filme ET - O Extraterrestre, de Steven Spielberg, encantou adultos e crianças desde sua estreia em 1982, esbanjando sensibilidade e simpatia

A Fera
Em A Bela e A Fera, um dos clássicos de animação de Walt Disney Pictures, uma criatura "horrenda" se apaixona por uma bela donzela. O sentimento se torna recíproco à medida que a moça descobre que, por trás do monstro, existe um coração nobre

Pelo direito de ser feio

"Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais feio do que eu?" Depois de tossir educadamente, o espelho iria responder: "Por acaso você já ouviu falar de um escritor argentino chamado Gonzalo Otálora?" O metrossexualismo de David Beckham, Brad Pitt e da geração Fiuk entre outros, está com os dias contados. Da Argentina, surge uma nova onda: o "feiossexualismo".

O homem que está derrubando a ditadura do bonito é o autor de ¡Feo!, livro que se tornou um grande sucesso editorial na América Latina. O escritor ganhou fama mundial em 2007, ao protestar em frente à Casa Rosada, palácio do governo da Argentina, pelos direitos dos feios. Para Otálora, a democracia não promove a igualdade entre os cidadãos feios e lindos. Por essa razão, ele defende a cobrança de impostos de pessoas consideradas lindas para compensar o sofrimento dos esteticamente "menos favorecidos".

– Quem diz que o amor é cego; a beleza, subjetiva; e o interior é o que importa? – provoca o escritor, que se baseou em sua própria experiência para escrever a história. Otálora tem 33 anos, é jornalista e feio. Quer dizer, já foi mais – principalmente quando ainda era adolescente e não fazia nenhum sucesso com as garotas.

– Eu tinha o que a gente chama de triângulo da morte: miopia, espinhas e dentes ruins – lembra.

Com todas essas características, o escritor não escapou de uma juventude conturbada.

– Eu não conseguia chegar nas meninas, tinha dificuldade em arrumar trabalho e quase não saía de casa – conta ele.

O autor lembra que as brincadeiras das quais foi vítima quando era criança o ensinaram a se depreciar diante do espelho e a acreditar que a aparência era um obstáculo à felicidade. Passou assim a crer que se modificasse a aparência teria uma vida mais fácil. Com o tempo, descobriu que nem a cirurgia plástica, as aulas de ginástica ou as dietas conseguiram fazer com que ele recuperasse a auto-estima. O autor diz que encontrou a felicidade quando parou de julgar a aparência na frente do espelho e jogou a balança pela janela.

O livro tem o mérito de misturar passagens comoventes (como a dificuldade com as garotas) com humor e pitadas de auto-ajuda.

– Acho que posso ajudar muitos feios a se sentirem melhor com o mundo e a própria aparência – explica o autor do livro que pode ser considerado uma versão masculina de Bete, a Feia.

Segundo Otálora, o feio pode ser uma pessoa de sucesso, um homem bem humorado, simpático e inteligente.

– Beleza não é tudo na vida – diz ele, lembrando de cara de um legítimo representante do feiossexualismo em nosso País: o craque Ronaldinho Gaúcho.

Feiossexual
Na opinião do escritor Gonzalo Otálora, assim como existem os metrossexuais, há também os feiossexuais:

1 :: O feiossexual desafia os estereótipos estéticos com personalidade, senso de humor e auto estima. Não teme o fracasso no trabalho, amor ou sexo. Supera-se tantas vezes quanto necessário para conquistar o que deseja e aprende com as críticas.

2 :: A busca pela beleza é a antítese de sua existência, ele desfruta de uma vida dissociada do espelho e da balança, sem angústias, complexos ou comparações estéticas.

3 :: É consciente de que para vencer na vida precisa se esforçar, estudar e se preparar mais do que os belos, sendo a forma de disputar, com chances, um lugar na sociedade.

4 :: Não idolatra os líderes estéticos nem tenta ser como eles. Não se deixa levar pela moda. assume um comportamento consumista racional, não compulsivo.

5 :: Como não busca ter um corpo perfeito, tampouco exige em uma conquista amorosa a perfeição estética. Seus relacionamentos amorosos são mais genuínos, duradouros e honestos.

6 :: Com personalidade, auto-estima e sentimento de segurança, consegue alcançar os objetivos a que se propõe, ainda que seu corpo não reflita a imagem do típico vencedor.

7 :: Ao feiossexual não interessa emagrecer, fazer dietas saudáveis ou deixar o sedentarismo só para se sentir melhor. Não trata o corpo como um pacote, mas como um todo. Representa uma nova forma de vida. É o fim da beleza idealizada.

O casal perfeito
Casamento de homem feio com mulher bonita tem mais chance de dar certo. A conclusão é de uma pesquisa realizada pela Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos, que relacionou o nível de satisfação do casal com a "atratividade" de cada um dos pares. Com o passar dos anos no casamento, os homens bonitos estavam menos satisfeitos. Além disso, a pesquisa concluiu que os maridos belos oferecem menos apoio emocional e prático às mulheres deles. De acordo com os cientistas, nos relacionamentos em que as mulheres eram mais atraentres que os maridos, os parceiros tinham comportamentos mais positivos do que nas situações em que os homens eram mais atraentes.

"O feio é relativo aos tempos e às culturas"

A relatividade entre o belo e o feio "Perguntem a um sapo o que é a beleza… Ele responderá que consiste em sua fêmea, com seus dois belos olhões redondos que se destacam na cabeça pequena, a garganta larga e chata, o ventre amarelo e o dorso escuro." A frase é do filósofo francês Voltaire, citada por Umberto Eco no livro História da feiura para ilustrar o quanto o julgamento sobre o que é feio varia de
acordo com pontos de vista distintos.

Por meio da pintura, do cinema, da literatura, da música, a obra proporciona uma viagem à história, que parte dos textos gregos e chega à arte contemporânea. Eco alerta que nem sempre o feio pode ser entendido como simples oposto ao belo, já que a percepção dos atributos de harmonia e proporção, normalmente vinculados à beleza, mudaram de sentido no decorrer da história ocidental. Dessa forma, uma obra arquitetônica que era considerada bela no período barroco poderia desagradar
um modernista.

O escritor italiano conclui: "O feio é relativo aos tempos e às culturas, o inaceitável de ontem pode ser o bem aceito de amanhã e o que é percebido como feio pode contribuir, em um contexto adequado, para a beleza do conjunto".

Eco conclui que vivemos em uma selva de contradições. Criaturas feias, mas amáveis, como ET, encantam crianças e adultos.

– Os jovens tatuam-se, perfuram-se as carnes com alfinetes para ficarem mais parecidos com Marilyn Manson do que com Marilyn Monroe – provoca o autor.

Sem sofrimento
Para a professora Suely Sales Guimarães, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), ter uma aparência que está fora dos padrões estéticos pode representar uma fonte de sofrimento:

– As pessoas buscam semelhanças e tendem a rejeitar discrepâncias, diferenças. O 'normal' aos olhos da sociedade é o esperado, comum, frequente – explica.

Segundo Suely, alguns aspectos do comportamento ou da aparência humana são socialmente mais desejáveis que outros, assim as características não desejáveis implicam rejeição da pessoa. Na opinião da psicóloga, é possível lidar com essas diferenças, desde que o indivíduo aprenda a valorizar outros atributos que não apenas os estéticos.

Suely adverte que muitas cirurgias plásticas, aparentemente bem-sucedidas, não resolver um problema geralmente ligado a essas questões: a autoestima. Ela destaca ainda que as atitudes da família influenciam muito.

– Com freqüência, encontramos apelidos jocosos, brincadeiras de mau gosto e pejorativas.

A busca que vira doença

Qual é a linha que separa a busca pela harmonia da obsessão por um corpo idealizado? O que difere uma adolescente insatisfeita com a ponta do nariz de figuras como o cantor Michael Jackson, que após se submeter a diversas intervenções cirúrgicas perdeu os traços que poderiam vinculá-lo à criança que encantou o mundo na década de 70?

Segundo especialistas, apenas uma conversa detalhada e honesta é capaz de identificar quem é o paciente que busca amenizar imperfeições e quem é o que luta para aplacar uma insatisfação permanente, que não será resolvida na mesa de cirurgia.

A dismorfia corporal é mais uma das doenças ligadas à insatisfação com o físico. A pessoa percebe o corpo de forma distorcida. Pequenos detalhes, como sinais ou cicatrizes, são encarados como deformidades. Em congressos de medicina, Michel Jackson e a cantora Cher são os exemplos mais usados por especialistas para ilustrar um paciente que sofre com a dismorfia corporal.

– A pessoa não aceita as formas do corpo. Faz de tudo para mudar esteticamente algo que não aceita dentro dela mesma – resume a cirurgiã plástica Bárbara Machado.

No Brasil, a modelo Ângela Bismarchi é apontada como exemplo. Ela já se submeteu a mais de 40 plásticas. Só uma consulta detalhada pode diagnosticar a dismorfia, que atinge 7% dos que procuram tratamentos estéticos.

– A cirurgia plástica não pode ser vista como instrumento de padronização. Não enxergamos a feiura ou a beleza. Buscamos a harmonia – conclui Bárbara.


Fonte: www.clicrbs.com.br

   
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