Câmeras ao vivo: um alerta à falta de limites na rede

Imagens instantâneas escancaram a intimidade e abastecem o debate sobre a busca por notoriedade e o desconhecimento quanto à repercussão do que é exibido na internet

Por Redação em 09/08/2010
nao. (Foto: Divulgação)
Câmeras ao vivo: um alerta à falta de limites na rede

O escancaramento da intimidade por meio da internet ingressou em um novo e perigoso patamar. Usuários da rede, principalmente adolescentes, estão transformando sua privacidade em espetáculo e exibindo ao vivo pela câmera de seus computadores imagens obscenas, degradantes ou violentas de si mesmos.

O fenômeno explodiu com o aparecimento de programas que permitem transmitir imagens com um par de cliques. Uma dessas ferramentas, o Twitcam, é a nova febre da internet. Ele transforma cada internauta em um big brother de si próprio. O Twitcam permite fazer transmissões (streamings) ao vivo utilizando uma webcam (câmera ligada ao computador) e uma conexão com a internet. Não é um serviço do site Twitter. O que o Twitcam faz é integrar as duas ferramentas, enviando o endereço (link) da transmissão na internet para os seguidores do usuário no microblog. O site ainda oferece uma área de bate-papo entre os internautas.

Na comparação, o YouTube, conhecido pelos vídeos que convertem anônimos no motivo do riso de milhões, virou uma brincadeira inocente. Agora, as imagens são emitidas instantaneamente, no calor do momento, por usuários que muitas vezes não têm tempo ou maturidade para refletir sobre o que estão fazendo.

Nos últimos dias, os episódios extremos se sucederam, alguns deles no Rio Grande do Sul. Um dos casos mais rumorosos ocorreu na Região Metropolitana, no final de julho. Um casal de adolescentes – ele com 16 anos, ela com 14 – praticaram atos sexuais ao vivo durante duas horas. Vinte e seis mil pessoas testemunharam em tempo real a nudez da menina e as carícias do garoto. Outros tantos baixaram o vídeo e o disponibilizaram na rede, ampliando seu alcance.

A dupla, que recém havia se conhecido, foi parar na polícia. Vai responder por difundir cenas de sexo explícito de adolescentes e pode cumprir medida socioeducativa.

– O impacto é muito negativo. Não só para ela, mas para toda a família. Ela jamais imaginou que teria esse desfecho. Para eles, foi apenas uma brincadeirinha de adolescente. Está muito arrependida e prometeu nunca mais sequer pensar em fazer de novo – contou, por e-mail, o pai da garota.

O caso chegou a limites inéditos, mas não foi isolado. Ávidas por multiplicar o número de seguidores e angariar mais acessos do que suas rivais, jovens têm usado como estratagema exibir o corpo diante da câmera e executar poses sensuais, que vão ficando cada vez mais ousadas à medida que a audiência cresce. Esses comportamentos são vistos por especialistas como uma combinação de busca por notoriedade e desconhecimento sobre a repercussão do que se exibe online.

Jovens dissociam amor e sexo

Raquel Recuero, doutora em comunicação e professora da Universidade Católica de Pelotas, observa que se vive uma “cultura da exposição”, na qual exibir detalhes da vida pessoal é concebido como algo positivo:

– Hoje a exposição está relacionada com o sucesso para muitos.

A essa sociedade que valoriza a busca pela notoriedade e na qual a notoriedade pertence a quem aparece no cinema e na TV, soma-se um outro fator. O psicanalista Alfredo Jerusalinsky lembra que, para as gerações mais novas, o amor foi substituído pelo sexo – e os dois se dissociaram.

– Esta é uma geração na qual o corpo se debilitou como lugar sagrado e emergiu como elemento de puro gozo e caminho para a notoriedade. E os jovens são induzidos a pensar que notoriedade gera felicidade, reconhecimento e amor. Imagem virou promessa de notoriedade – analisa.

Falsa sensação de segurança

A consequência são adolescentes ávidos por popularidade e que usam o corpo como instrumento para alcançá-la. Erick Itakura, pesquisador do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, observa que há uma cegueira em relação às repercussões dessa exposição:

– As pessoas se expõem porque querem. Elas têm dimensão de que aquilo vai ter um alcance, mas imaginam que vai ser algo positivo. Como a internet dá uma sensação de segurança, por estarem dentro de casa, acabam ultrapassando os limites. É uma coisa que não acontece tanto nos Estados Unidos ou na Europa, onde as redes sociais fazem menos sucesso por existir um receio de se expor.

Na tarde da última segunda-feira, a onda de exposição da privacidade ao vivo chegou no limite da tragédia. Um universitário de 20 anos, de Porto Alegre, registrou uma última mensagem em seu Twitter: “Não consigo mais”. Na mesma postagem, adicionou um link. Quem o acessou pôde assistir ao suicídio do rapaz.


Fonte: clicrbs.com.br

   
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