Opinião sobre palestras-show

Entrevista de Sergio Muller para o CliSoledade abordando o tema que está sendo muito discutido atualmente.

Por Redação em 12/10/2010

   

nao. (Foto: Divulgação)
Opinião sobre palestras-show

Sergio Muller é Consultor para os Negócios do Varejo, com atividades junto às pequenas e médias redes de lojas varejistas do Sul do País, com ênfase em suas expansões através da gestão de estoques e planejamento estratégico.

ClicSoledade – Atualmente, na busca de aprimoramento profissional, as empresas e associações comerciais e industriais investem pesadamente na apresentação de palestras, notadamente aquelas que são chamadas de palestras-show. Qual a sua opinião a respeito?

Sergio Muller - Seria interessante, antes de entrar diretamente na opinião sobre os shows-palestras, abordar alguns aspectos relativos aos bastidores das empresas, notadamente sobre um fator fundamental chamado motivação. Ora, este fator é naturalmente a alavanca principal do sucesso daqueles que juntam platéias para se deliciar nas instantâneas e ilusórias palestras que dizem motivar imediatamente as pessoas. Há, para tudo, um mercado e uma demanda. Centenas de pessoas talentosas e perspicazes, celebridades ou não, perceberam este precioso filão originado da própria incompetência dos empresários, os quais não tendo capacidade e não criando um ambiente interno propicio, buscaram terceirizar a motivação. É algo assim como perceber a (des) motivação do seu pessoal, muitas vezes desvalorizado e sem reconhecimento, julgar que os mandando assistir duas horas de uma alegre palestra, fará com que recuperem a auto-estima e se transformem em pessoas que farão tudo pela empresa com grande prazer.

Certa ocasião, ao prestar consultoria em uma empresa varejista que passava por grandes dificuldades financeiras e em fase de demissão de uma parte do quadro de pessoal, sugeria o Diretor Financeiro que fosse contratado, para levantar a moral dos sobreviventes, um palestrante desses que dessem show (sic)… Com pensamentos dessa natureza, não era à toa que amargavam um prejuízo.

Então, num panorama geral, a coisa toda virou uma banalização sem precedentes. Há atualmente uma verdadeira indústria movimentando milhões de reais, em franca ascendência no Brasil, não só partindo de iniciativas solitárias, mas também com a participação de grandes empresas do segmento e, tal qual no mundo artístico, já não há mais espaço nas agendas dos mais notáveis. É, sem dúvidas, a terceirização da satisfação e da motivação do ser humano no seio das empresas.

Não vou me reportar sobre quais palestras tem algum valor ou aquelas que nada acrescentam à finalidade. Cada empresário faz o que quer com o seu dinheiro, mas jamais poderá comprar a motivação fora da soleira de suas portas. Motivação se obtém internamente com remuneração coerente, reconhecimento, respeito, desenvolvimento profissional e possibilidades de ascensão, além de outros aspectos relevantes. Mandar funcionários, como se fossem “vaquinhas de presépio” dar boas risadas temporárias diante de um palhaço qualquer, é, por si só, uma grande piada.

Por fim, reconheço que, excepcionalmente, em convenções anuais naquelas em que há um congraçamento entre o pessoal e o ambiente necessita ser mais leve, estas palestras de técnicos de futebol, mágicos, comediantes e mais uma grande troupe, sirvam para alguma coisa.

ClicSoledade – Você acredita que esse formato desvirtua o foco principal de uma palestra, que é ensinar e não somente entreter?

Sergio Muller - Sim, sem dúvidas que há um desvirtuamento quando o foco será o de ensinar, capacitar, desenvolver. Palestras-show nada tem a ver com palestras técnicas ou que visem construir conhecimento. Este entendimento confuso por parte de quem contrata é causa comum de desperdício do dinheiro das empresas. Na verdade, muitos empresários e gerentes de RH, equivocadamente, só querem aproveitar a “onda” e estarem em sintonia com aquilo que o moderno mercado oferece. Contratar uma celebridade, mesmo que ela não traga benefício algum para os números da empresa, faz com que a imagem desta empresa brilhe perante a comunidade.

ClicSoledade – Hoje, artistas, técnicos de futebol, mágicos, humoristas e outros tantos fazem palestras sendo contratadas por grandes empresas. Você acredita que essas pessoas são indicadas para liderarem palestras com credibilidade?

Sergio Muller - Credibilidade é que eles têm de sobra, porque souberam muito bem arranjar espaço na mídia e ganhar destaque nacional. Se tiveram competência para vencer num mercado tão concorrido, dizer o quê sobre a credibilidade destes personagens? Na verdade perceberam que, utilizando suas famas e suas virtudes, poderiam chamar a atenção de um público ávido por novidades. Se há alguém disposto a pagar, por que não? Se ninguém, após o show, vai aproveitar o conteúdo, o que importa? Certa ocasião, eu conversei com vários gerentes de uma rede gaucha que recém haviam participado de uma palestra dirigida por um conhecido humorista. Como se esperava, disseram-me que a palestra havia sido muito engraçada e que riram o tempo inteiro... No entanto, não souberam me responder como iriam transferir aquela alegria na busca de resultados em suas lojas.

ClicSoledade – Na sua visão, há uma fórmula para que um show-palestra seja interessante ou isso não existe?

Sergio Muller - Não se pode descartar a existência de fórmulas eficientes, mesmo que seja para espetáculos carregados na base da emoção, da pirotecnia ou de efeitos especiais. Ocorre que está tão fácil vender uma palestra deste tipo que os apresentadores ou comediantes já estão negligenciando fórmulas interessantes ou que se adaptem a um público dirigido. A mesma palestra, com os mesmos “cacoetes” e frases fabricadas é apresentada a gregos num dia e em dia outro a romanos e, se cada vez há mais público que as aceite, para que mexer em time que está ganhando?

Antes, podemos exagerar, na era neolítica, somente pessoas credenciadas e experientes a versar sobre um determinado assunto, tinham credibilidade para falar a uma platéia. Hoje, qualquer jogador de futebol que tenha marcado um gol decisivo na Copa do Mundo, está apto a se apresentar como um exemplo de sucesso pessoal. Por mais incrível que pareça atualmente quem mais dá palestras dentro de empresas, são aqueles que jamais viveram a experiência de ter efetivamente vivido nelas.

   
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