Do primeiro gole ao primeiro porre

Existe uma idade certa para a primeira taça de vinho?

Por Redação em 24/11/2010

   

nao. (Foto: Divulgação)
Do primeiro gole ao primeiro porre

Chegam as festas do final de ano, você abre uma garrafa de vinho para acompanhar o jantar de Natal e vem a inevitável pergunta do filho:

-- Pai, posso provar só um pouquinho?

É a velha manifestação da curiosidade infantil, semelhante àquele pedido para acompanhar os pais numa noite de sábado com os amigos ou na ida a uma peça de teatro. Não, seu filho ainda não tem idade para isso e dessa vez ele vai passar o Natal sem saciar a curiosidade. Mas até quando?

Se for pelos médicos, a resposta certa é: aos 23 anos. Essa é a idade em que o cérebro está maduro para tolerar uma dose moderada de álcool, como mostra a reportagem de Fernanda Aranda (clique aqui para ler). Se for pelos legisladores brasileiros, ele fará isso aos 18 anos, quando estará legalmente habilitado a comprar o que a mesada permitir e você não terá meios de proibi-lo. E, se for pelos advogados, o mais prudente seria depois dos 21 anos. Nessa hora, ele será inteiramente responsável por seus atos e, se exagerar na dose, a encrenca legal decorrente do abuso é toda dele.

Ou seja, dentro de mais alguns anos seu filho estará financeira, legal ou medicamente autorizado a matar aquela curiosidade, que já não será mais infantil. Então a questão paterna passa a ser outra: como prepará-lo para esse momento?

A reportagem do iG foi conhecer como o dilema foi resolvido por quatro dos 11 integrantes de tradicionais famílias produtoras de vinho que formam um clube muito particular: o Primum Familiae Vini, onde se concentram alguns dos melhores rótulos do mundo, e que, neste mês de novembro, se reuniu pela primeira vez no Brasil.

Essas grandes famílias, com produtores da Itália, França, Portugal, Espanha e Alemanha, fazem encontros anuais com seus integrantes, nos quais trocam experiências entre as diversas gerações. Se você fosse um garoto em alguma dessas propriedades, seu pai não teria condições de vigiá-lo, caso você realmente desejasse tomar um gole de vinho.

Quem sabe esse momento aconteceria ao se esconder na fria e escura adega, onde envelhecem os tintos de mais qualidade, lugares com dezenas, centenas e até milhares de barricas com mais de 200 litros cada e uma rolha de plástico ou madeira facilmente destampáveis por qualquer criança de oito anos. Em todas essas famílias, o vinho está constantemente presente à mesa – e talvez esteja aí a primeira lição. Não existe “o” momento.

“Nos Estados Unidos, a lei e muitas famílias proíbem a bebida até os 21 anos e tratam o álcool como se fosse o diabo”, diz Laurent Drouhin, que comercializa, em Nova York, os vinhos que seu irmão e primos produzem na Borgonha. “Isso faz com que os jovens evitem o vinho porque, quando podem beber, acabam querendo apenas se embriagar. Então tomam destilados.”

Integrante de uma família que segue uma antiga tradição francesa de colocar uma (mas atenção, é exatamente isso, apenas uma) gota de vinho na mamadeira das crianças, Drouhin se recorda de, aos sete anos, molhar os lábios com vinho nos almoços de domingo. Hoje, pai de um garoto de oito anos e de uma filha de 14, mantém a mesma regra familiar. “A boa lição é dar educação e informação, junto com o vinho”, diz ele. “Meus filhos souberam desde cedo que esse é um prazer controlado.”

“Na nossa família, a tradição ensina a ter diálogo com as crianças para poder ter regras quando eles forem adolescentes”, diz Etienne Hugel, herdeiro de uma família da Alsácia que faz vinhos há 371 anos. “Nós dizemos que não se bebe o vinho pelo álcool, mas porque é um produto maravilhoso, que aproxima as pessoas, é um objeto cultural e um alimento prazeroso de uma refeição.” Hugel conta que nunca proibiu seu casal de filhos de provar o vinho em eventos familiares. Em alguns momentos, quando eram menores, diluía com água, regulava a quantidade. Hoje, eles têm 21 e 19 anos. “E nunca os vi bêbados”, diz.

Dominic Symington, de Portugal, seguiu um padrão semelhante. “Nunca lhes neguei um copo de vinho”, diz ele, sobre os três filhos. Na regra da família, as crianças podiam provar o vinho entre dez e doze anos e beber, nas refeições de domingo, a partir dos 15 anos. Ele enfatiza o fato de isso ter acontecido sempre sob sua supervisão. “Se sinto que alguém passa do limite, simplesmente digo ‘basta, chega, não vai ter mais’”, conta. “Sempre respeitei a criança, o jovem e, além do mais, uma tacinha nunca aleijou ninguém”, diz Dominic, integrante da 13ª geração dos Symington, uma família com 350 anos de história no comércio do vinho do Porto. “Nunca tivemos um caso de alcoolismo na família”, diz ele.

Se for verdade que a barreira legal e moral de muitas famílias americanas pode, uma vez superada, resultar num apelo ao excesso, também é certo que a liberdade dada por muitos dos produtores de vinho não evita alguns porres. Miguel Torres, hoje patriarca de uma família com propriedades em boas regiões da Espanha, como Penedés, Priorato e Rioja, além de Califórnia e Chile, conta que seu primeiro excesso foi numa festa da família, quando seu pai se descuidou e ele, com oito para nove anos, tomou umas taças de champanhe. “Aquilo me fez mal, mas no fundo me ajudou a conhecer e a manter o equilíbrio depois”, diz. “Não se pode beber vinho pela euforia, mas pelo prazer.”


Fonte: ig.com.br

   
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