Como equilibrar tempo e prazer em um relacionamento?

Baixa frequência do sexo tornou-se motivo de preocupação, culpa e cobrança

Por Redação em 24/01/2011
nao. (Foto: Divulgação)
Como equilibrar tempo e prazer em um relacionamento?


Em depoimentos contundentes, homens e mulheres admitem aquilo que poucos têm coragem de dizer até para o próprio parceiro: na maratona diária da vida de um casal, muitas vezes falta tempo ou ânimo para o sexo. Com jornadas de trabalho cada vez mais prolongadas, filhos para cuidar e compras no supermercado a fazer, a frequência do sexo no casamento tornou-se motivo de preocupação, culpa e cobranças nos lares.

Um levantamento da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR) em 2009 revelou que 19% dos entrevistados tiveram diminuição na libido por conta do estresse, cujos sintomas, afirma a presidente da Isma-BR, Ana Maria Rossi, não se devem a grandes tragédias, mas às pequenas atribulações do dia a dia. No meio das multitarefas de hoje, em que todos estão conectados o tempo todo, sexo nem sempre é prioridade, assim como ter uma boa alimentação ou as sonhadas oito horas de sono.

— O dia continua tendo 24 horas, mas muitas vezes as pessoas estão tirando do próprio prazer o tempo que falta para o trabalho, para cuidar dos temas do filho ou de qualquer outra tarefa — destaca Ana Maria.

Pior: às vezes o sexo entra para a lista de tarefas como mais uma atividade a se desincumbir.

— As pessoas não estão necessariamente transando menos, mas investindo menos no sexo. Às vezes, transam mais por obrigação do que por prazer — avalia a sexóloga Lina Wainberg. Não se trata apenas de transar o suficiente, mas de investir no casal.

Terapia de casal

Passam pelo divã de terapeutas sexuais tanto dilemas de quem transa mais por obrigação, por medo de ser traído ou de perder o parceiro, quanto queixas de quem vê sua mulher ou seu marido cada vez mais distante na cama. Embora os homens se sintam menos à vontade para negar sexo alegando cansaço, esta situação já não é mais novidade nos consultórios, nem nos lares, a julgar pelos depoimentos nesta reportagem. Mas, passada uma década dos anos 2000, esse ainda é um assunto sobre o qual poucos falam abertamente.

— Muitos casais não têm intimidade para conversar sobre o assunto — avalia a psicóloga e sexóloga Lúcia Pesca.

— Todo mundo se acha um ET, pensando que os outros transam mais vezes, que só eles transam duas vezes por semana ou menos. Mas já é sabido no estudo da sexualidade humana que não é a frequência do sexo que vai proporcionar a felicidade sexual.

O que é normal?

A liberdade sexual conquistada implica tanto o direito a sexo satisfatório (não à toa apontado como uma das condições para ter qualidade de vida pela Organização Mundial de Saúde), quanto poder dizer "não", quando assim desejar. Assim, o que cabe aos casais pós-feminismo e pós-revolução sexual? Sentir-se cobrado a transar mais e melhor, com toda a informação de que dispõe em um mundo hiper-sexualizado ou dar-se o direito de adaptar o sexo à rotina corrida que a maioria vive? Ou ambas as coisas?

Entre tantas questões, a pergunta clássica ainda é: "Será que estou dentro no normal?". Então, os casais se vêem cercados por números: as X vezes que cada um acha que deveria transar, o tanto que os amigos dizem que transam, o outro tanto que as pesquisas apontam como média. Qual, enfim, deve ser a medida? Simples, respondem em coro os sexólogos: esqueça os amigos e as pesquisas e pergunte a você.

Autora do Estudo da Vida Sexual do Brasileiro, o mais completo já realizado no país, e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Carmita Abdo esclarece: as pesquisas são feitas para traçar perfis de comportamento, não para apontar metas a ninguém. Assim, as médias apontadas em 2003, e reiteradas no estudo Mosaico Brasil, em 2008, de três transas por semana para homens e duas para mulheres — sendo que eles gostariam de poder transar, em média, seis vezes por semana, e elas, quatro — , indicam apenas um coeficiente matemático e um descompasso entre o ideal e a realidade.

— A média é um parâmetro, mas nessa média há quem faça cinco vezes por semana e quem faça uma vez a cada 15 dias. Média não significa que a maioria faz assim, mas que há uma grande variação.

No cinema

De Pernas pro Ar conta a história de uma executiva que, de tão obcecada pelo trabalho, esquece da família, do marido e do sexo. Mas a workaholic Alice (Ingrid Guimarães) é demitida. Ainda que uma comédia, o longa discute temas atuais:

— Eu acho que esse é o filme da minha geração. A gente pensa muito em trabalho, gosta do que faz e às vezes esquece de todo o resto — disse Ingrid Guimarães em entrevista ao canal Telecine.

Depoimentos

Donna convidou leitores do site do caderno a enviarem um depoimento sobre como é conciliar a correria do dia a dia com uma vida sexual feliz no casamento. O resultado foi um retrato franco sobre questões enfrentadas por muitos casais de hoje — embora poucos falem disso tão abertamente.

"Sexo no casamento é realmente uma sorte, porque rotina, trabalho, casa, filhos e contas a pagar atrapalham tudo. Namoro é fase de conhecimento, em que tudo é novidade. Estou casada há apenas seis meses e transo no máximo uma vez por semana com meu marido, e isso me incomoda demais. Tento de várias formas deixar isso transparecer, mas parece que não me faço entender e que as minhas necessidades não são saudáveis e vitais." Caroline, 34 anos, advogada

"Que bom saber que não sou a única a ter angústia por isso. Sou casada há menos de um ano e me sinto "pressionada" pelas amigas mais velhas a ter uma vida sexual superintensa! E fico pensando "Será que eu devia estar transando mais?". Eu e meu marido somos professores, trabalhamos 40 horas, revezando entre os três turnos. Ele viaja pelo interior do Estado duas vezes por semana. Ou seja: em alguns dias, quase não nos vemos. Ao longo da semana, com tudo de trabalho e compromissos que assumimos, o sexo, infelizmente, acaba ficando em segundo, terceiro plano... Normalmente transamos duas vezes por semana. Obviamente: sábado e domingo. Ambos nos "culpamos" por isso, mas a culpa é do cansaço!" Lucia, 24 anos, professora

"Sou casado há 14 anos. Com o passar do tempo, a frequência e a qualidade das relações sexuais têm se alterado profundamente. Além dos problemas naturais, como trabalho e compromissos, percebo uma acomodação e um desinteresse de minha parceira. Conversamos muito sobre isso e até já fizemos terapia, mas nada mudou. Isso me afeta muito, até transtornos de autoestima já tive. Hoje estou mais conformado, porém nossa frequência chega a ser de duas vezes ao mês, e isto é pouco para mim. As razões que minha esposa relata são o cansaço da rotina de trabalho e estudo, mas, principalmente, a falta de desejo. Cheguei à conclusão de que o sexo é para mim como um remédio contra o estresse, já, para ela, o estresse é o maior inimigo da vida sexual, sendo esta a razão da nossa assimetria nos desejos sexuais. Compreendo que a frequência sexual só será problema se as necessidades forem diferentes entre o casal, senão, viverão felizes mesmo que sem sexo." Alexandre, 43 anos, funcionário público

"Sou casada há 23 anos e sempre tivemos fases, às vezes de muito sexo, outras de menos frequência. No momento estamos transando uma vez por semana ou até menos. Cansaço, correria, outros compromissos, tudo parece ocupar o primeiro lugar na lista do que fazer. Estou preocupada com essa baixa frequência. Parece que quanto menos você transa menos quer, ou também parece que perdemos o jeito. Tenho lido sobre o assunto mas não encontrei o que realmente me ajudasse. Fico pensando se com outros casais isso também acontece e que maneiras encontram para mudar."
Cristiane, 45 anos secretária

"Sou casado há dois anos. Certamente, eu teria vontade de ter relações diariamente, mas essa frequência não passa de uma a duas vezes por semana. Muitas vezes, eu mesmo sou o culpado, por cansaço, estresse ou até mesmo preguiça. Além da frequência, há nitidamente um decréscimo da qualidade, especialmente em relação a variações sexuais, sensações e experiências. A maioria dos meus amigos casados gostaria de ter uma frequência maior e uma melhora na qualidade da relação. Grande parte consegue fazer um balanceamento de satisfação com a estabilidade e os filhos. Alguns ainda buscam fora do casamento a satisfação sexual, muito parecido com gerações passadas, às vezes com a conivência silenciosa das esposas, prova de que em alguns pontos estamos no tempo dos nossos avós."
João, 38 anos cirurgião plástico



Fonte: clicrbs.com.br

   
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