“Mesmo nossas elites não são compostas por leitores”, afirma o escritor Pedro Bandeira

Pedro Bandeira é o homenageado da 13ª Jornada Nacional de Literatura

Por Redação em 03/07/2009

   

nao. (Foto: Divulgação)
“Mesmo nossas elites não são compostas por leitores”, afirma o escritor Pedro Bandeira

Campeão de vendas no segmento de literatura infanto-juvenil, com mais de 20 milhões de livros vendidos, Pedro Bandeira será o autor homenageado da 13^a edição da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, que acontece de 24 a 28 de agosto. O escritor nasceu em Santos, em 1942, mas desenvolveu toda sua vida adulta em São Paulo. Antes de se dedicar à literatura, foi professor e jornalista. Em 37 anos de produção literária, publicou mais de 70 títulos, entre eles a série consagrada /Os Karas/, além de /A marca de uma lágrima/, /Agora estou sozinha.../ , /Mais respeito eu sou criança/ e /O fantástico mistério de Feiurinha/. Essa extensa bibliografia lhe rendeu vários prêmios, como o Prêmio APCA, da Associação Paulista de Críticos de Arte, e o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Nesta entrevista, Pedro Bandeira fala de educação, formação de leitores no Brasil, do seu processo de produção, da relação com seu público leitor e do espaço que a mídia dá para a literatura infanto-juvenil.

O Brasil é notadamente um País de poucos leitores. Eventos como a Jornada Literária de Passo Fundo têm por objetivo formar novos leitores. Como você avalia a importância de eventos desse tipo?

*Pedro Bandeira:* Creio que eventos como a Jornada prestam um serviço muito maior aos leitores e à literatura do que as já consagradas bienais do livro, que acabaram por transformarem-se em grandes espetáculos cheios de estandes enormes e vistosos como carros alegóricos de desfiles carnavalescos. Esse tipo de evento pouco tem a ver com literatura; é mais uma festa dos vendedores de livros do que dos produtores de cultura. A Jornada, ao provocar a leitura prévia dos trabalhos dos autores que estarão presentes, ao oferecer oficinas e palestras aos interessados, trabalha diretamente com a literatura, com a produção literária, visando o direito de ler e não somente o dever de comprar livros. Já tenho argumentado a esse respeito com responsáveis pelas bienais. Creio que, num futuro bem próximo, as mega-bienais do livro possam modificar-se, utilizando-se de bons exemplos como a Jornada de Passo Fundo e a FLIP, de Parati.

*O que ainda é preciso para que o Brasil se torne um país de leitores?*

*PB:* Esse é um trabalho eterno de modificação da tradição histórica de nosso País, que se consubstanciou no desprezo pela educação democrática e pelos livros. E mudar uma tradição de quinhentos anos não é tarefa das mais fáceis. Mesmo nossas elites não são compostas por leitores e, de acordo com avaliações internacionais de desempenho leitor, como o PISA, o Brasil continua tirando as notas mais baixas. Uma população que não sabe ler ou que não entende o que lê não pode ser leitora. Mas, desde a redemocratização do Brasil, vêm sendo feitos esforços no sentido da extensão do direito da educação a toda a população. Esse é um passo fundamental, desde que seja acompanhado por uma melhoria na qualidade desse ensino. Se não desistirmos de melhorar nosso sistema educacional, se o aprimorarmos a cada dia, as novas gerações, aos poucos, haverão de tornarem-se leitoras. E já podemos divisar uma luz no fim do túnel: um levantamento recente, feito pelo Observatório do Livro e da Leitura (OLL), nos revela que alguma coisa está mudando. Graças aos esforços dos professores, parece que estamos formando uma nova geração totalmente diferente das anteriores – na faixa que vai dos 11 aos 13 anos, a média de livros lidos por ano já alcança a impressionante marca de 8,5, enquanto a média de leitura anual da faixa dos pais dessas crianças mal chega a 3! Nada mal, não é, se acrescentarmos que a média de leitura da França é de 7 livros por ano...

Para muitos, principalmente durante o período escolar, ler ainda é uma obrigação. Como você acha que é possível despertar o prazer pela leitura nas novas gerações?

*PB: *A transmissão do saber deve ser prazerosa. Saber não é chato, ler não é chato; ser ignorante é que é chato, muito chato! E esse deve ser nosso papel para transformar nossas crianças em adultos ávidos pelo prazer de saber e de ler: temos de ser sedutores, não indutores. Obrigar a ler, como se o livro fosse um purgante a descer pela goela, só pode vacinar os alunos contra aquilo que foi produzido por pessoas como eu para dar-lhes prazer.

Como é sua relação com seus leitores? É bastante procurado? Que tipo de questionamentos seus leitores costumam fazer?

*PB: *Sempre recebi cartas às dezenas, num volume bem maior do que minha capacidade de respondê-las. Hoje, com a Internet, são os e-mails, umas duas centenas por mês. E quem escreve espontaneamente para um autor naturalmente não é aquele que não gostou do livro – somente os fãs escrevem! E o que eles me oferecem é carinho, muito carinho. Sempre pedem mais livros como “Os Karas”.

Em relação a sua atividade de escritor e a sua produção, o que você considera que mais atrai as crianças em um livro? Que histórias são mais atraentes e podem contribuir para a formação do novo leitor?

*PB: *Há vários pontos a destacar, mas fico com o principal: um livro deve ser como um espelho, no qual o leitor se veja refletido. Se ele identificar-se com a personagem, com seus pensamentos, suas dúvidas, seus sonhos, seus problemas, suas esperanças, bingo! Mordeu a isca!

Como você avalia a cobertura da mídia no segmento de literatura infantil e infanto-juvenil?

*PB: *Se a mídia faz a cobertura dos escritores da Literatura infanto-juvenil? Nada! A mídia divulga com entusiasmo qualquer lançamento de videogames, de bonecas americanas ou de moda infantil e juvenil, mas ignora completamente o que fazemos. Praticamente não há resenhas de lançamentos de nossos livros na grande imprensa. Nós não somos notícia... Agora, se a Barbie faz 50 anos, abrem-se manchetes e convocam-se bandas de música! Essa não seria mais uma das razões para que o Brasil não seja um país de leitores?

Qual sua percepção sobre a Jornada Literária de Passo Fundo?

*PB: *Conheço a Jornada por sua gostosa fama nacional. Sobre ela, já muito li e muito ouvi falar, mas jamais fui convidado a participar dela. Se não me engano, a Jornada já existe há 27 anos e eu escrevo para crianças já há 37. Dessa vez irei como convidado e como homenageado especial. Como sou lido em Passo Fundo desde o início de minha carreira, e como já várias vezes, a convite de editoras, visitei essa linda cidade para falar com meus leitores, sei que vou encontrar leitores desde os de seis anos até os de mais de 40. Na certa há professores que cresceram lendo meus livros. Então, o encontro vai ser uma festa!

   
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