O acervo familiar da casa dos Vasconcelos Pedroso

A harmonia entre o antigo e o moderno

Por Léa Maria Brito Teixeira em 25/06/2012

   

(Foto: Léa Teixeira / Especial)
O acervo familiar da casa dos Vasconcelos Pedroso

Quem passa pela Avenida Marechal Floriano Peixoto e vê a fachada de um dos estabelecimentos que vende confecção feminina, dos mais antigo de Soledade – a SANDRA MODAS – sabe que o interior da casa (parte residencial) possui uma decoração diferenciada, que revela o estilo de seu proprietário: o antigo contrastando com o moderno. No entanto, ao entrar pela porta interna da loja e se deparar com o acervo que existe no interior da referida casa jamais sairá de lá com a mesma sensação que entrou.

Uma mistura de peças de diversas épocas, muito bem conservadas e preservadas, misturadas ao conforto da modernidade, que comprova que é possível manter a tradição e viver confortavelmente sem entrar em atrito com estilos, épocas, autores, peças e mobiliários.

Há muitos anos tenho vontade de escrever uma crônica, um artigo, uma reportagem, um documentário ou algo semelhante que retrate um pouco da história da casa do Paulo. Sim, é assim que o meu ex-professor de Direito e Legislação, decorador do espaço do jantar do meu casamento e amigo Paulo Vasconcelos Pedroso, professor, empresário, historiador, advogado e folclorista me afirmou que gosta de ser referido em se tratando da sua casa:

- a casa do seu Maneco, a casa da tia Maria, a casa do Paulo.... simplesmente a casa do Paulo.


O casal Maria e Maneco, na década de 30, recém-casados. Fotografia emoldurada também em estilo da época. O casal são os pais de Paulo Roberto Vasconcelos Pedroso e Sandra Pedroso Cunha, avós de Eder Pedroso Cunha e de Rita Pedroso Cunha.


O retrato do senhor Guilherme de França Vasconcelos, pintado em óleo sobre tela, pela professora Semíramis Gracco Dutra, foi um presente da distinta professora à família.

A casa do Paulo que acalenta um gosto inusitado. Pessoalmente, ele me disse que gostaria de andar vestido à moda antiga: de terno e gravata de tope, pince-nez (óculos inglês), polainas, bengala como acessório. O seu local preferido para leituras revela essa sua excentricidade (foto em destaque).

E é nesta casa que ele guarda relíquias familiares herdadas, ganhadas, adquiridas. E cada uma delas tem uma história fascinante, pois é a própria história de Soledade e do Rio Grande do Sul.

A cozinha é um local especial. Ali encontramos toda a tradição gaúcha, amostra de peças raras, “a cozinha da Casa das Sete Mulheres”, como afirma Paulo, fazendo uma comparação com àquela produzida apela Rede Globo para o mencionado seriado. E é neste local que ele recebe seus parentes e amigos para jantares preparados por ele mesmo.


O fogão de chapa com as panelas e chaleiras de ferro; o paneleiro, as caçarolas penduradas na parede, a talha para guardar água e o lampião, ao lado do fogão, que fornecia a iluminação necessária.


O teto da cozinha revestido de madeira nativa, com detalhes feitos à machado para ficar parecido com os da década de 30 e envernizado pelo Paulo. Ele cuida muito desses pormenores. Cada reforma que faz ele procura fazê-la pessoalmente, para manter as características originais.


O armário de cozinha, original, em madeira de imbuia, com os acessórios que eram usados na década de 30: copos, bule, licoreiras, xícaras, de porcelana, cerâmica e barro.


O canto da cozinha foi descascado propositadamente e envernizado pelo próprio Paulo. Nele foi colocada uma bancada onde ele serve pratos típicos e sobremesas por ocasião das comemorações e jantares. As gamelas de madeira bruta são as depositárias de frutas e verduras. Na parede um cabide com diversas funções e um armário vazado, com diversos assessórios da época.

Destaque espacial para uma peça – uma talha de louça branca, pintada em azul, que era usada por sua avó materna para fazer conservas de azeitonas e também para armazenar água potável.


Mais um armário de madeira que abriga peças lindas de porcelana, cuias, farinheira, guarda-bolachas e outros utensílios domésticos.


Saindo da cozinha nos deparamos com uma sala dividida em três ambientes, mas todos com a mesma beleza da década de 30. As louças são um capítulo a parte: jogos de porcelanas chinesas guardados em seus estojos originais, xícaras de diferentes nacionalidades e com decorações delicadas, armários com de peças e jogos de café, de chá, licoreiras e outras peças do gênero.


Os dois jogos de porcelana chinesa foram presente de casamento ao casal Maria e Maneco e ainda se encontram em seus estojos originais (1937).


Jogos completos em porcelana, para servir café e chá, que eram usados pela família Vasconcelos Pedroso.


Xícaras avulsas, também em porcelana, importadas, que eram usadas pela família em suas refeições.


A delicadeza deste conjunto de pires e xícara chama a atenção. A mesma pintura se repete no fundo do pires e no fundo da xícara.


A coberta de mesa completa ainda se encontra guardada no armário.


A poncheira que ainda é utilizada em situações especiais.


O conjunto de copos de estanho, para servir diversos tipos de bebidas.


Licoreira em cima de guardanapo de crochê confeccionado por Maria Vasconcelos Pedroso.

O jogo de sofá vermelho mantém a sua forma original.


Mais uma coleção de licoreiras de diversas cores, lampião e outras peças de vidro e de cristal.


O gramofone, que ainda funciona, e ao lado a chapeleira, em espelho de cristal bisotado, com o chapéu que o seu Maneco usava e uma bengala.


O rádio da época, conhecido como “caixinha de abelha” ainda é usado pelos donos da casa.


A mala de madeira, usada para transportar os pertences dos viajantes, na década de 30, que se deslocavam de charrete ou de aranha, meios de transporte comuns.


O bidê usado nos quartos para que as pessoas fizessem sua higiene pessoal. Na parte de cima a bacia e o jarro que sempre estava abastecido com água. Na parte debaixo, o penico ou urinol usado pelas pessoas especialmente à noite.


O penico, com tampa, feito da mesma porcelana e pintado igual ao conjunto de bacia e jarro. Este conjunto é de estilo prussiano e a porcelana é holandesa. O bidê conserva suas características originais do ano de fabricação, por volta de 1930.


A licoreira e seus copos têm uma importância histórica especial: foi usada em algumas oportunidades para servir vinhos e licores aos ilustres personagens políticos da época: Borges de Medeiros e Júlio de Castilhos, quando passaram por Soledade e visitaram a família, que era da ala dos Republicanos.

Finalmente, selecionei uma peça exuberante e linda: uma peça que as mulheres usavam para andar a cavalo em um selim (sela própria para uso da mulher). O pé era calçado numa peça feita em prata e com motivos de flores, que segundo Paulo era a marca gaúcha nas peças de prata.


A mesma peça em outro ângulo:


Dessa forma, realizei um antigo desejo de poder conversar, fotografar e saber detalhes da casa do Paulo e divulgar para os soledadenses que sabem que existe essa riqueza, mas nunca tiveram a oportunidade que eu tive de poder estar dentro desse contexto. Agradeço a boa vontade do Paulo e a promessa de que a biblioteca será o meu próximo trabalho.


   
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