Mercado de joias busca caminhos para crescer

Empresários adotam estratégias para agregar valor à pedra

   

(Foto: João Mattos / JC)
Mercado de joias busca caminhos para crescer

O brilho reluzente das ágatas, ametistas e opalas extraídas no Rio Grande do Sul deve se traduzir em negócios mais rentáveis nos próximos anos. O Estado quer trocar o rótulo de vendedor de pedras brutas pelo de grande fabricante de joias.

Atualmente, cerca de 80 das mais de 500 companhias do segmento instaladas em solo gaúcho atuam na confecção de anéis, brincos, pulseiras e outros acessórios do gênero. Interessado em aumentar esse número, o setor começa a se mobilizar para agregar valor a seus produtos.

Apesar de não possuir um garimpo sequer em seu território, Soledade é um dos principais polos de comércio e industrialização de pedras, gemas e joias no Brasil. No município existem 180 empresas que atuam na área e manejam mais de 200 variedades de rochas, vindas de diferentes partes do País e do mundo. E é pela cidade do Alto da Serra do Botucaraí que passam os planos de modificação da realidade atual vivida pelo setor.

“Perdemos espaço. Os chineses vêm aqui, compram as pedras brutas, industrializam e vendem para Europa e Estados Unidos. A saída, agora, é investir na joalheria para retomar mercado”, aponta Paulo Primaz, coordenador do Arranjo Produtivo Local (APL) de pedras, gemas e joias.

O dirigente lembra que, até o início dos anos 2000, 60% do Produto Interno Bruto (PIB) de Soledade vinha do segmento. O dólar, então bastante valorizado, gerava receitas expressivas mesmo com a venda dos artigos inacabados.

Na época, o número de empresas instaladas no município chegava a 500. Com o passar do tempo, a estrutura foi minguando e, agora, a participação no PIB não passa dos 30%.

Com 90% de sua produção de pedras exportada e uma movimentação financeira de US$ 45 milhões ao ano, o APL agrega, ao todo, 16 municípios. A intenção é incluir outras cidades envolvidas com o setor.

Assim que forem oficializados os novos integrantes do arranjo, será feito um mapeamento completo da atividade no Rio Grande do Sul. O objetivo é consolidar uma articulação conjunta, a fim de expandir o retorno financeiro obtido nos dias atuais.

Distrito Industrial é alternativa ao setor

Um dos grandes projetos da região para incentivar a joalheria é a construção do distrito industrial de Soledade. No espaço, o município vai destinar 60 galpões para até 100 companhias do segmento. “Uma das dificuldades dos pequenos empresários para agregar valor aos produtos é a falta de recursos para comprar máquinas para, por exemplo, fazer o banho de ouro ou prata, finalizando a joia. Com o centro, queremos comprar equipamentos e permitir o uso coletivo, cobrando das empresas um valor simbólico”, vislumbra Primaz. A aquisição dos equipamentos seria viabilizada através de verbas de editais públicos. Para criar a estrutura serão necessários R$ 10 milhões.

O problema é que o projeto tramita a passos de tartaruga. Estão pendentes, desde 2011, a concessão da licença ambiental e um estudo da Universidade de Passo Fundo (UPF) sobre empresas da localidade situadas em áreas de risco, que terão prioridade para ocupar os espaços. “Claro que um investimento desses somaria ao setor, mas está muito demorado. As empresas não podem ficar esperando pelo distrito”, acredita Sadi Bagatini, presidente do Sindipedras-RS.

O APL de Soledade procura resolver, junto aos órgãos públicos, outras pautas consideradas importantes. Uma delas diz respeito ao custo de regularização dos garimpos e ao fornecimento das licenças. “Em seis anos, tivemos que investir quase R$ 40 mil só para regularizar a atividade”, menciona Gilvan Martins, proprietário de um terreno de dois hectares, em Barros Cassal, recheado de opalas e ágatas.

Apesar de ter ganhado quase R$ 100 mil durante os seis anos em que escavou a área, Martins desistiu da atividade em função da burocracia. “É tudo muito difícil”, resume. Agora, ele repassou o direito de exploração para um empresário local, que, em contrapartida, devolve 35% do valor financeiro captado com o material extraído.

Empresários adotam estratégias para agregar valor à pedra

Um anel de esmeralda que a personagem Tereza Cristina, vivida pela atriz Christiane Torloni, utilizava na novela Fina Estampa impulsionou os negócios de uma pequena empresa de Soledade. Antes de ser acoplada no esférico e virar joia, a pedra bruta foi trabalhada na M.A. Lapidados, empresa fundada há três anos pelo artesão Marco Antônio de Oliveira e outro sócio.

Desde então, os pedidos pela mesma peça e por outras variedades aumentaram significativamente. Como consequência, o faturamento subiu para R$ 100 mil anuais e novos funcionários tiveram de ser contratados. Hoje, além de Oliveira, outras sete pessoas trabalham na lapidação manual dos artigos, uma atividade pouco comum na região. Do ano passado para cá, a produção mensal passou de 2 mil para 4 mil peças por mês. Todo o montante é vendido diretamente aos fabricantes de joias e bijuterias da região.

A manutenção do crescimento, no entanto, agora é desafiada por um problema comum a diversas profissões. “Falta mão de obra. Não tem ninguém que ofereça um curso de lapidação aqui na cidade para formar novos profissionais”, lamenta Oliveira. Sem capacitação formal, o ofício é aprendido na prática. O processo de lapidação é minucioso. Em um primeiro momento, são retiradas todas as impurezas da pedra. Depois, cada detalhe é desenhado em diferentes tipos de serras e lixas. Ao final, após cerca de 10 minutos, surge a peça. “A pedra sai daqui finalizada e com mais valor agregado”, menciona.

Em média, o artesão compra um quilo do material bruto por R$ 6,00 e o transforma em centenas de pequenas pedras. Os mesmos R$ 6,00 ele obtém na comercialização de cada unidade. Quando a peça é encaixada em uma joia ou bijuteria, a valorização é ainda maior. O anel de esmeralda da novela, por exemplo, tem um valor de mercado infinitamente maior.

De olho no ganho obtido com a venda do produto finalizado, Loreni Rocha e Maria Helena de Almeia criaram, em 2012, a Maxna. Também localizada em Soledade, a companhia compra a pedra lapidada e a transforma em anel, brinco, colar, pingente ou pulseira. Com um faturamento de R$ 200 mil logo no primeiro ano de atividade, a dupla aposta nas vendas em feiras em todo o Brasil para alavancar o faturamento.

A marca desenvolve os próprios produtos, cuidando desde design à fabricação, e vende no atacado e no varejo. “Compramos as pedras em Soledade e também em Minas Gerais”, diz Loreni. Já Maria Helena lembra que o fato de o Rio Grande do Sul ser um tradicional vendedor do material bruto, principalmente de ágatas e ametistas, gera algumas situações curiosas. “Por vezes, a pedra é gaúcha, vai para Minas Gerais para ser lapidada e nós a compramos dos mineiros para fazer as joias”, destaca.


APLs fomentam vocação econômica das regiões

O Arranjo Produtivo Local (APL) de pedras, gemas e joias é um dos 20 enquadrados nesse tipo de política no Rio Grande do Sul. Desde o final dos anos 1990 a iniciativa é conduzida no Estado. Nos primórdios, durante o governo Olívio Dutra, a ação se chamava Sistemas Locais de Produção. O termo APL foi criado já nos anos 2000, a partir de orientação do governo federal. Desde então, a estratégia passou por altos e baixos em solo gaúcho. A partir de 2011, com a criação da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI), o foco voltou a ser intensificado.

Os arranjos têm o objetivo de potencializar a vocação econômica de determinada região através da articulação das empresas instaladas no local. Cada APL possui um agente coordenador, que pode ser desde um sindicato até uma universidade. O governo do Estado aporta recursos nessa entidade, geralmente para investimentos em governança e na prospecção de mercados consumidores para os artigos fabricados naquela região. “A nossa prioridade no momento é governança. Estamos alocando R$ 100 mil ao ano em cada APL apenas nessa área”, afirma Sergio Kapron, diretor da AGDI.

Atualmente, 18 mil empresas estão nas áreas de influência dos 20 APLs, gerando 307 mil empregos em 19 regiões do Estado. Até o momento, a agência investiu R$ 7,7 milhões no programa. A meta é aumentar os repasses, chegando a R$ 50 milhões em 2016. Cada arranjo também poderá se beneficiar em até R$ 900 mil/ano em isenções fiscais através do recém-criado Fundo APL. Nessa modalidade, as empresas que fizerem investimentos terão redução no ICMS a ser pago, mas precisarão dar uma contrapartida de 20%, que irá para a entidade gestora. Apesar de o potencial financeiro chegar a R$ 18 milhões anuais, a AGDI projeta R$ 5 milhões em isenções nas primeiras temporadas de operação.

Além do fundo, quem está situado em um APL pode acessar outros benefícios fiscais. As companhias enquadradas nos arranjos interessadas em ingressar no Fundopem ganham 15 pontos extras. Já as marcas incluídas nos APLs reconhecidos (aqueles que o governo do Estado apoia, mas não aporta dinheiro) têm 10 pontos de bônus. Entretanto, essa opção ainda é pouco utilizada. Apenas 14 empresas em 4 APLs usufruíram o direito e outras 9 aguardam o aval do governo.

O governo estadual não prevê a abertura de novos editais de seleção de APLs, ao menos até o final de 2014. “Vamos trabalhar com esses 20 arranjos, pois eles ainda precisam consolidar seus planos de desenvolvimento e seus projetos estratégicos”, justifica Kapron. O último processo seletivo ocorreu em maio, quando oito novos APLs foram enquadrados.

Um dos novos integrantes do sistema é o APL do polo naval e offshore de Rio Grande, que é organizado pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg). A articulação conta com cerca de 60 micro e pequenas empresas fornecedoras dos grandes investidores da região. “Com os recursos, queremos mapear toda a cadeia produtiva. Queremos ver o que os estaleiros estão comprando e de onde eles adquirem produtos ou contratam serviços. Assim, será possível atrair empresas que possam atender a essas carências”, explica o vice-reitor da Furg, Danilo Giroldo.

   
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