Imagens e literatura abrem os debates da primeira conferência da Jornada

Os escritores Pedro Gabriel, Rafael Coutinho, Roger Mello e Zeca Camargo participaram da 16ª Jornada Nacional de Literatura na noite de terça-feira, 3 de outubro.

Por Redação em 04/10/2017

   

(Foto: Divulgação / UPF)
Imagens e literatura abrem os debates da primeira conferência da Jornada

A primeira conferência da 16ª Jornada Nacional de Literatura, realizada na noite de segunda-feira, 3 de outubro, na Capital Nacional de Literatura, em Passo Fundo/RS, debateu “Literatura e imagem: além dos limites do real” e muitos outros assuntos que surgiram durante a movimentação. A mesa contou com a participação dos escritores Pedro Gabriel, Rafael Coutinho, Roger Mello e Zeca Camargo, além dos coordenadores de debates - que estrearam nesta função no palco da Jornada - Alice Ruiz, Augusto Massi e Felipe Pena.

Os coordenadores de debates foram apresentados e uma das primeiras ações foi ler um manifesto feito pelos professores da rede estadual, em protesto ao parcelamento de salários, motivo pelo qual muitos não puderam participar das Jornadas Literárias. A carta foi destinada e enviada ao escritor Felipe Pena que, em sua fala, ressaltou que literatura também é sinônimo de combate às injustiças. “Poucas coisas me deixam mais feliz do que ver tantas pessoas em um espaço como esse discutindo literatura democraticamente”, completou a escritora Alice Ruiz.

Coube ao também escritor Augusto Massi dar início aos debates da noite. Massi destacou o tema da noite e a importância de ver a literatura dialogando com outras áreas, em especial, com as imagens, tema da conferência. “Nós estamos abrindo a Jornada de Literatura de forma muito híbrida com formas mais democráticas de cultura, mas que retornam ao livro. É uma discussão que sai de algo mais efêmero e eu espero que a gente consiga, simbolicamente, fazer uma grande cartografia”, disse fazendo menção a obra W, de Roger Mello.

Escritor conhecido por criar um universo em guardanapos de papel na obra Eu me chamo Antônio, Pedro Gabriel iniciou o debate brincando que nunca falou para tanta gente em sua vida. Filho de mãe brasileira e pai suíço, alfabetizado em francês, Pedro contou que sua expressão em guardanapos é uma forma de retratação e de agradecer à língua da mãe, o português, com a qual só teve contato a partir da adolescência. Para ele, os guardanapos são uma forma de desenhar sua vida. “Eu não tinha encontrado minha personalidade e o meu guardanapo virou meu território, um território de 9cm x 13cm, do tamanho de uma fotografia, que inclusive cabe em um álbum de fotos”, lembrou.

Ainda sobre sua obra, Pedro Gabriel falou sobre esse movimento de cada vez mais autores presentes nas redes sociais conquistarem as editoras. “Quando eu comecei, sentia um preconceito muito grande, tinha até quem nem chamasse de literatura o que eu fazia, mas acredito que cada leitor se identifica com o que mais toca ele. Todo meu trabalho é feito fora da internet, a internet é a minha vitrine e eu fico muito feliz com essa possibilidade porque democratiza um pouco o acesso ao conteúdo”, comentou. O escritor mencionou ainda o espaço dedicado na Jornada à discussão da literatura, independentemente da plataforma.  “Quando tentam classificar se o que eu faço é literatura ou não eu volto para o retorno que eu recebo dos meus leitores. O guardanapo mais bonito que eu já fiz na verdade não foi um guardanapo, mas foi me tornar porta de entrada para quem sabe futuros grandes poetas”, completou.

Quadrinista, artista plástico e editor, Rafael Coutinho é um dos artistas mais conceituados no Brasil, já teve fanzines, revistas e publicou livros de quadrinhos e graphic novels, os romances gráficos, que se aproximam do gênero romance de maneira íntima. Para ele, o caminho para a escrita de construções mais longas foi o que mais se enquadrou em seu estilo. “A história mais longa das graphic novels veio com a necessidade de eu precisar de mais tempo e pausas para produzir. Fiz fanzines antes, com histórias em capítulos, e vi que tinha fôlego para isso”, disse ele. Seu último livro, Mensur, levou 7 anos para ser concluído.

Filho de Laerte Coutinho, um dos maiores quadrinistas brasileiros, Rafael conta que o mais difícil não foi optar pela mesma área que o pai, mas estudar e criar arte. “Fazer arte e entender isso foi mais difícil do que encarar o legado do meu pai”, afirmou. Ele ainda conta a relação próxima que tem com o pai, inclusive com trabalhos conjuntos. “No início não via meu pai como genial, como todo mundo via. Quadrinhos era marginal, então eu admirava a marginalidade do meu pai, por aquela crítica chocante”, finalizou. Um dos mediadores, Augusto Massi, comentou a ligação com o coletivo que o mundo dos quadrinistas têm, além da forte cultura literária.

O jornalista, escritor e apresentador Zeca Camargo também falou sobre preconceito e do desafio de circular tanto pelo universo do jornalismo como da literatura. De acordo com ele, o segredo é seguir fazendo e encarar como um desafio. Para Zeca, a literatura é uma arte da comunicação e para vencer o preconceito é preciso fazer e provar que se é capaz.

Zeca também contou que foi por meio de uma imagem que chegou na palavra. “Fui levado a uma viagem nas palavras por uma imagem de Millor Fernandes. É uma imagem de um pássaro com dentes, muito presente na obra Fábulas fabulosas e eu sou muito grato a essa cara que me apresentou o mundo das imagens e, a partir dele, das palavras”, lembrou.

Roger Mello é um dos ilustradores mais premiados do Brasil, sendo considerado o autor Nobel dos quadrinhos. Apenas do Prêmio Jabuti, ele recebeu 10. Em sua fala, Roger destacou o livro traz pluralidade. “O livro é um objeto plural, subversivo, que nunca vai caber dentro de rótulos”, observou ele, que também fala da importância de que as pessoas que trabalham no mundo editorial tenham essa noção.

Falar da leitura fora da caixa, quando pela imagem se lê o mundo, também ajuda a fazer a literatura não ser uma alta cultura, popularizando o acesso no cotidiano. Assim, ele afirma que a imagem é ligada com a palavra. Sua obra W, que levou 9 anos para ser concluída, é uma narrativa não-linear, com pistas e vestígios para construir a história, e, dessa vez, sem ilustrações. Pelo fato, Roger enfatiza como no livro tem espaço para tudo e como a leitura é ampla.

Sobre a Jornada

A 16ª Jornada Nacional de Literatura e a 8ª Jornadinha Nacional de Literatura são promovidas pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pela Prefeitura de Passo Fundo. Os eventos contam com os patrocínios do Banrisul, da Corsan, da Ambev, da Companhia Zaffari & Bourbon, da Ipiranga, da Panvel, da SulGás, da Triway e da TechDEC; com o apoio cultural da BSBIOS, do Sesi e da Coleurb, patrocínio promocional da Capes, da Fapergs, da Italac e da Oniz, com a parceria cultural do Sesc, financiamento do Governo do Estado – Secretaria da Cultura – Pró-cultura RS LIC e realização do Ministério da Cultura.  Confira a programação no site www.upf.br/16jornada.

   
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